sábado, 8 de julho de 2017

Amores possíveis, paixões impossíveis - Parte XI



Tem um momento na vida que é necessário se reencontrar. Clara estava reflexiva, não sabia se seguiria por aquele caminho. Vivenciar um amor pela metade é pior do que não viver. Gum transitava entre o amor e suas amarras, deixando Clara incomodada. O amor deve ser vivido na sua integralidade, não pode ser vivido em doses homeopáticas. Amor é amor, um sentimento orgânico e inteiro, que não pode ser fragmentado. Amor é a fusão de dois indivíduos que geram um ser singular, uma vida em comunhão, um desejo único.
O amor é assombroso, chega e muda tudo de lugar, dá novos significados para vida, promove uma erupção de emoções, transforma a realidade circundante e dissolve a individualidade. Clara vivenciava emoções tão dispares ao lado de Gum, às vezes, transitando entre o mais límpido amor e o mais amargo rancor.
“A lua alta iluminava a noite de inverno, as estrelas cintilavam no céu, o frio era um convite para estar à dois, mas Clara estava só. A linda lua cheia iluminava o jardim da casa, o vento gélido trazia a tristeza, deixando o sentimento letárgico. O amor é assim, a falta de reciprocidade enrijece a alma e deixa um vazio por tudo aquilo que não se viveu.
_ A dor do amor não vivido é mais angustiante do que a dor de um rompimento. Quando algo já experimentado acaba, dói, mas amar algo que você não vivenciou dói infinitamente mais. Assim o desejo é deixar de amar... deixar a alma serena e dissipar o amor. – Pensou Clara.
Ela volta para dentro de sua casa, esperando que o calor do seu lar aqueça-lhe a alma. O coração está num impasse entre o amor sentido e a dor, vive no limiar da aflição. Clara fora imprudente, descobriu-se amando um homem tão ironicamente distante de tudo que ela sempre admirou, apenas a inteligência se encaixava no enredo das escolhas feitas por ela no passado. Amar com a intensidade que amava, alguém tão intimamente desconhecido, como fora possível?
Ela se encantou pelas semelhanças e diferenças, pelo jeito rustico, pelo cheiro de mar que ele carregava em sua pele, pelos cabelos grisalhos, pelo caminhar desajeitado e principalmente pela alma dura e inquieta.
Para Clara, o barco de metal era a prisão de Gum, representava algo de obscuro em sua alma.  A desorganização de sua vida, a falta de atitude em situações que geravam conflitos, demonstrava a inércia. Tão conflitante a personalidade dele, que era impossível decifrar.
Só que o amor precisa ser alimentado, em alguns momentos, o sofrimento que Clara insistia em não viver, aniquilava sua alma, se instalava em seu âmago sem pedir licença. Aquela noite estava sendo cruelmente dura, fria e triste. Talvez tenha compreendido que tudo o que Gum tinha para oferecer era nada perto do amor que sentia. Mais de vinte anos sem revisitar o tal amor e quando reencontra é algo tão sorrateiro e capaz de arrancar palpitações que dilaceram a alma.
Angustiada, solitária e amando ardentemente, Clara seguia experimentando seu conflitante sentimento. O que ansiava era viver novos momentos de cumplicidade, entrega e desejo ao lado de Gum, mas algo infringia esse enredo, fazendo-a tropegar na dura e impiedosa realidade.
Como é inusitado o desejo, a solidão que sentimos por alguém que está perto é muito mais avassaladora. É um querer que não pode ser alcançado, é estar tão perto e longe da felicidade que se vive à dois. Alguns momentos de prazer são insuficientes para conter o pranto. O desejo é andrajo, vil e ingrato quando solitariamente vivido na fantasia amorosa.
Naquela tarde, Clara olhou para Gum e sentiu que algo havia mudado, ele estava mais leve, solto e bem-humorado. As atitudes sempre tão previsíveis dele, demonstravam que tinha encontrado um refúgio amoroso, que estava explorando um novo horizonte do qual Clara não era personagem.
A intensidade de um sentimento não é a mesma para cada um dos envolvidos.  Ele que sempre permanecia horas em seu navio avistando o mar, agora estava muito mais em terra firme desbravando o asfalto e mudando seu ritmo de vida para experimentar algo. Como poderia ele ter esquecido os tórridos momentos de amor e entrega que viveram juntos? Havia ele trocado Clara por uma nova história?  O coração dela dizia que sim. As preocupações dele eram de quem tinha algo a esconder, ao mesmo tempo ele evidenciava para Clara que algo havia mudado, fazendo-a perceber que o estava perdendo. A dor dilacerava o coração, fazendo-a sucumbir ao desejo de aniquilar aquele amor desproporcional e que a obrigava a experimentar o sofrimento tão incomum em sua vida.
Viver o amor é aceitar a realidade, nem sempre de uma existência feliz, muitas vezes o inevitável e contraditório ressignifica a vida e o amor, promovendo uma trágica experiência. Clara sofre ao lembrar do olhar de Gum que desvendou o desejo dele por outra, o sorriso fácil, o corpo mais relaxado, evidenciava a leveza de sua alma.
_ Como o corpo diz muito do que sentimos, Gum estava diferente, talvez ele não perceba como os sinais demonstram seu desejo... _ Fala Clara em voz alta”.
Todos sabem que o amor é parte da trajetória da vida. Que se experimenta várias formas de amar ao longo da jornada, que nunca haverá um amor como outro. O amor assim como a morte, são presenças certas na caminhada e nunca alguém estará preparado para encara-los. O amor não vivido provoca uma dor pujante que só é abstraída quando se alcança o desejado, desamor.
Parecia que o fim estava próximo, Clara sempre dizia não ter vocação para o sofrimento. Estava ela decidida a findar com sua angustia, queria se despir daquele amor. Sabia que deveria cumprir um ritual, deixar o amor agonizar e morrer, depois leva-lo para o crematório e jogar as cinzas ao vento, para que nunca mais fosse capaz de reencontra-lo. Apesar da dramaticidade do momento, Clara procurava equilibrar seus sentimentos, estava decidida, queria varrer Gum de seu coração e de sua vida, definitivamente.
As intuições devem ser seguidas, elas dizem muito e quase sempre quando não se valoriza os sinais dados pela vida a decepção é certa... talvez, Gum estivesse vivenciando a loucura de uma nova paixão, e sem a vergonha que o impedia de deixar florescer seu sentimento por Clara, estava investido de alegria e empoderado pelo sentimento disposto a construir uma nova história de vida. Gum se transformava quando apaixonado, Clara já havia vivenciando um outro momento em que ele tinha se encantado por outra pessoa. A imersão na paixão era muito mais corriqueira do que a vivencia do amor, que sempre provocará modificações no outro. A paixão é intensa e fugaz, talvez muito mais simples de ser experimentada por Gum.
Clara acorda, começa a organizar seu dia e decide que mudará o rumo da sua historia com Gum...

Claudia Paschoal