quarta-feira, 5 de julho de 2017

Amores possíveis, paixões impossíveis - Capítulo IX





Gum aproximou-se da janela para ver a manhã invadir sua sala ampla e envidraçada. Encostou a cabeça no vidro e respirou profundamente, o ar da manhã fria encheu-lhe as narinas. Sentia-se exausto...
Poucas pessoas eram confiáveis e ele não tinha com quem dividir suas angustias. O vizinho que morava na casa ao lado apareceu em sua janela e também contemplava o amanhecer, Gum acenou e se recolheu para seu universo interior que estava borbulhando.
Tempos atrás havia ali uma vida mais agitada e animada, sempre rodeada de amigos. Olhou para trás e viu que a mesa de jantar agora estava repleta de objetos em total desordem. Pensou: - Minha casa é um reflexo de meu mundo interior, a desordem interna está impressa na desorganização de cada ambiente. 
Contemplou sua sala e percebeu que o caos havia se instalado. Como era possível suportar tamanha desordem? Foi para o banho, momento de introspecção. Enquanto a água percorria seu corpo naquela fria manhã, seu pensamento estava distante. Refletia sobre sua vida, suas escolhas, suas amizades, seus relacionamentos e sua inércia diante de situações incômodas. No entanto, já vivia aquela rotina e havia acomodado-se...
O amor sempre traz um colorido para a vida, e ele agradecia por ter recebido tal benção. Divertia-se com as lembranças dos encontros que teve com Clara. Considerava-se um privilegiado, apesar de tudo que estava passando.
Mantinha um relacionamento muito próximo com sua família, apesar da distância. As relações humanas são complexas e a dependência e controle sobre os movimentos do outro nunca são saudáveis. Já não sabia medir o tempo, talvez acontecesse há muito tempo. As mudanças acontecem, tudo se modifica, pensou. No momento seguinte, deu-se conta de que nada mudara.
Desejava viver intensamente, sentir sua alma pulsar, seu corpo vibrar, seu coração disparar, mas a inquietude de sua alma não era suficiente para que tomasse as rédeas de sua vida. Vivia um ciclo vicioso de dependência e co-dependência de suas crenças, parecia incapaz de realizar qualquer movimento para mudar aquela trajetória. O caminho traçado era o caminho a ser seguido, mesmo que não o levasse a plenitude e quietude que tanto buscava. 
Agora era o momento de decidir, sair em busca de sua felicidade ou permanecer naquela história plagiada de um conto, que não o fazia feliz? Voltou-se para seus pensamentos, que o mantinham distante. Não encontrava nada que retratasse melhor o sentimento dele do que as linda palavras de Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente”...
A prisão invisível que o mantinha no calabouço de seu barco, era assustadora quando vivenciada no dia-a-dia, passava pelas coisas mais corriqueiras da rotina diária às questões mais complexas. Era doentio, sintomático e assustador para quem assistia do lado de fora da janela de vidro.
Aquele pseudo controle o impedira de vivenciar o amor que estava sentindo. A insegurança e dificuldade de tomar decisões, que bem ou mal, era um mecanismo de defesa não fora eficiente, poupando-lhe de amar e sofrer. Não sabia ao certo como tudo começara, mas estava vivendo uma história confusa e apaixonante. Com muito carinho, desejo e um amor que Gum desconhecia. 
Uma inquietude sobre o futuro daquela relação estava deixando aquele doce casmurro com o coração em cacos. Acabara algumas vezes, por imposição das suas crenças, não que desejasse, mas não queria se machucar, deixando de vivenciar com Clara tudo o que imaginava em seus mais secretos sonhos. 
O medo de amar o fazia sentir como se faltasse uma parte de si. Sabia o quanto desejava alguns momentos de cumplicidade, amizade, carinho e muito prazer. As afinidades existiam, o cheiro da pele dela o hipnotizava, o olhar, os beijos que ele roubava, o calor daquele corpo quando tocava o seu o fazia desejar intensamente eternizar cada momento. Mais o toque do telefone o trouxe para a realidade, no momento mais feliz do seu dia, no calor da intimidade dos seus sonhos. Por mais que desejasse se entregar aquele amor, não conseguia se livras de suas correntes. 
A onipresença daquela mulher em seus pensamentos o incomodava. Ele se sentia vigiado pelos seus próprios pensamentos. Clara, em sua casa pensava no último encontro deles e nos tórridos momentos de prazer que viveram. Gum seguiu com seu carro para o trabalho, durante todo o seu trajeto Clara esteve presente, o deixando tenso. O que causava estranheza era a embriagues dele, o aceite sem questionamentos, como permitia aquela invasão em seus pensamentos? Para Gum, era uma coleira mental, era o poder que Clara exercia sobre ele. 
Chegou em seu barco de metal, analisou cada objeto espalhado pelo seu escritório. Há tantos anos convivia com aqueles móveis e naquela ambiência que não sabia mais avaliar onde sua história começara. Antes cada detalhe, cada objeto conhecido o fazia relembrar um momento, uma viagem, uma surpresa... Agora, eram apenas objetos espalhados desordenadamente e que não remetiam a nenhuma lembrança, nem doce, nem amarga, apenas o vazio... 
Clara pensa no amor por aquele homem tão diferente dela. Como ela se envolveu com alguém tão controlador, tão teimoso, tão cheio de limitações e com crenças que o aprisionam? Depois de tantos anos, ela se via amando novamente. Um amor tão confuso e instável que a desafiava. Clara sentia seu coração disparar e um frio no estomago, sempre que se aproximava de Gum, logo ela tão segura de si, sucumbindo a emoção. Era uma prova de que a mente não controla o corpo, como gostaria. Clara mesmo amando mantinha certa frieza racional, nem parecia uma mulher que desejava ardentemente, que era romântica e sonhadora. Ela relembra do momento em que ele tira sua camisa e fica inebriado de prazer ao sentir o cheiro de sua pele.
Gum se questionava de como o amor podia ser tão avassalador e tomar conta de sua vida e de todos os momentos de seu dia. O que disparava esse sentimento tão orgânico e astuto? _ Ela me complementa, o que falta em mim encontro na Clara: bom humor, otimismo e felicidade... O que encontro nela é o que busco encontrar para equilibrar minha vida.
A intensidade do amor entre Clara e Gum, promove uma fusão, como um só ser. Amor é êxtase, que aniquila a individualidade e é capaz de dissolver as amarras que aprisionam Gum, na sua própria caverna. Vivenciar uma experiencia libertadora de um amor intenso, permitindo que todas as loucuras da paixão se apoderem dessa história, deixando de lado a vergonha que impede o florescimento do amor é um desafio que pode modificar radicalmente o destino dos dois. 
Claudia Paschoal