quinta-feira, 29 de junho de 2017

Parte VI

Como é difícil entender aquele casmurro ser. Clara acredita que ele vai romper o medo e se entregar àquele sentimento que os une e os afasta.  Ela não entende como fora capaz de amar tanto, de desejar tanto...
_ Parece castigo, acreditei que nunca mais amaria alguém assim.  _ Diz Clara em voz alta.
Ela escolhe uma roupa, pensa em algo que a deixe sensual, apesar da inconstância dele procura sempre surpreendê-lo. Aquele sentimento estava por deixa-la sem rumo, como se todas suas crenças fossem derrubadas.
Ela segue para o trabalho, algumas mudanças de plano a deixam sozinha por horas.
“Será que em algum momento aquele barco de metal desbravaria o recife do medo? O amor é capaz de vencer barreiras, mas seria suficiente para ele lutar pelo que sente?
Um homem preso as amarras de seus conceitos e preconceitos, que não se permite, dificilmente viveria um amor tórrido. 
Gum, o casmurro capitão daquele barco que não zarpava havia muito tempo de seu porto, não seria capaz de arriscar-se e desbravar novos mares”
O tempo é curto e logo, Clara é interrompida e chamada para realidade.
A paixão é uma fase que passa e muda tudo abruptamente, aquele desejo ardente, aquela sensação mágica de que estar ao lado do outro é o suficiente para ser feliz, muda. Já o amor ele completa, é um bem querer sem cobranças, sem desejo de monopolizar o outro.  Ele entendia o amor como uma relação onde havia um dominante, ele, e o dominado, no caso a Clara. Só que nesse caso o dominado não precisava tanto do outro, como desejava o dominador, que estava sempre insatisfeito, desejava ter suas vontades atendidas e tinha um lado narcisista que precisava ser idolatrado. Gum não percebia que o dominador se tornava obsessivo e que a postura de domínio dele provocava uma asfixia em Clara.
Naquele momento, a relação deles enfrentava uma tormenta. Clara, o desejava por tudo aquilo que ele não era e por tudo que ele representava de novo para ela. Gum a desejava, talvez, por ela estar perto demais e por saber que outros também a desejavam. Será que Gum estava apenas exercitando seu lado de macho alfa?
Clara deveria aniquilar aquele sentimento e partir para outros mares. Ela sabia que tinham outros olhares que a cobiçavam, não fazia sentido ficar parada naquele porto, esperando que aquele capitão do barco que não zarpava, tomasse uma decisão.
Clara, sai para almoçar com Gum. Eles estão acompanhados de um amigo, o comportamento dos dois é de casal, todos diziam isso, que se comportavam como um casal, só que não eram exatamente um casal. Eram duas pessoas que lutavam contra seus medos e inseguranças, tentando sufocar os sentimentos, desejos e amor que alimentavam um pelo outro. O orgulho vencia.
“Nesses momentos de dúvida, ele saia para o mar. Ali encontrava conforto e quietude para suas angustias, aquele contato homem-natureza, o acalmava. Ele sempre gostou da simplicidade da vida. Os cabelos grisalhos e o rosto fino, um tanto flácido e cinzento carregavam as sombras das tormentas que ele trazia em seu amago. Apesar do corpo dar sinais de sua idade, tinha uma presença robusta e ereta, o olhar amargo, a aparência desleixada, as rugas e sulcos, os cabelos despenteados e as roupas que ele vestia, demonstravam que o tempo havia passado.
Ele desejava beija-la ardente e efusivamente. Ela era a mulher que ele desejava.
_ Como quero tê-la em meus braços... – Diz em voz alta.
_ Quem você quer em seus braços? – pergunta Clara, que chega deixando Gum atônito.
_ Não vi você chegando, o que aconteceu?
_ Você não respondeu minha pergunta. – Diz Clara, olhando fixamente para Gum.
_ Não sei do que você está falando. Se veio até aqui é porque precisa conversar sobre alguma coisa, o que é?
Clara sorri e diz:
_ Claro, você quando se sente acuado reage sempre da mesma forma.
Gum a olha e pensa em resolver aquele desejo. – Vou esquecer todas as minhas frustrações do passado e me entregar.  As velas do barco batem com o vento que sopra, provocando um arrepio pelo corpo dele. Ele sentiu muito medo, ficou paralisado.
Clara o admirava, percebendo que havia um sofrimento, uma guerra interna em andamento.
_ Sabe o que quero?
_ Não, mas adoraria saber. _ responde Clara.
_ Quero...
Gum se aproxima de Clara, toca seu rosto levemente e a beija ardentemente. Os dois se entregam ao desejo...
_ Não sei mais como fazer. É maçante a minha tentativa de esconder o que desejo, quando acordo, lembro de você. Quando me deito a noite, lembro de você. Pobre de mim, que sofro calado e que sinto tanto desejo. E me obrigo a manter as aparências.
_ Quero gritar para todos que a amo.
Um som alto no convés, rompeu o sonho dele. Ao longe, ele fitou aqueles olhos admiráveis e felizes que percorreram seu corpo até encontrar com os olhos pequenos e apertados. Eles se abraçaram e Gum rouba-lhe um beijo. Ela ri gostosamente e o abraça novamente.
_ Você é o resmungão mais adorável que conheço. – Diz rindo e brincando com ele.
 _ Devo dizer que tem quem goste.
_Sério? Quem?
_ Você... – Diz Gum”.
Clara olha para sala e o silencia a toca profundamente, ela se senta defronte de seu notebook e pensa em reescrever aquela história de amor, que naquele momento está mais para desamor.
O difícil quando se ama é perceber que a relação chegara ao fim, a dor da ruptura é tão grande quanto a dor do desamor... Não há culpados. Uma ruptura pode ser o início de momentos felizes, não antes de uma boa dose de sofrimento. Podem duas pessoas estarem predestinadas uma para outra? Pode o amor vencer o orgulho e as barreiras internas de alguém cheio de amarras?

Não sei responder, só sei que amo... Como são doces os beijos roubados. 


Claudia Paschoal



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