quarta-feira, 26 de julho de 2017

Amores possíveis, paixões impossíveis - parte XII

Parte XII

Gum está inquieto, Clara o deixa naturalmente irritado, ele está aprisionado em seu barco de metal, que continua estático no porto. Ela percebe que algo está acontecendo, ele está diferente, parece mais distante em alguns momentos, noutros a conforta em seu braços e rouba-lhe um beijo, inesperadamente.
Ele reclama sempre que ela se atrasa para qualquer compromisso, como se ele nunca a deixasse esperando. Ela reclama das respostas incompletas, da demora para responder uma mensagem, assim eles vivem implicando um com o outro, como adolescentes.
Para Clara, Gum estava se envolvendo em outra história, o que deixava um vazio enorme e uma dor com a qual ela não sabia conviver. Ele fazia insinuações, como se desejasse ser indagado sobre um possível envolvimento com outra pessoa. Ele queria magoa-la, estava apaixonado ou estava fugindo do que sentia?
Clara chega ao imutável barco de metal, desgastado pelo tempo. Ele não a cumprimenta e como se estivesse apressado senta-se atras de sua mesa, como se fosse um escudo, ela sorri e diz que ele deveria ser educado, então ele a cumprimenta, Clara é irônica. A conversa gera em torno de assuntos do dia-a-dia, questões corriqueiros e alguns assuntos de trabalho que estavam pendentes. Em certo momento ele se descontrola, como sempre que algo o desagrada.
_ Você me irrita mais do que qualquer outra pessoa. – Sentencia Gum.
_ Fico feliz em saber, porque você também é a pessoa que mais me irrita na fase da terra. -Diz Clara, sorrindo.
Ela estava decidida a ter, pela primeira vez, uma conversa sobre o que havia acontecido no passado entre eles, falar do que sentia e entender o que estava acontecendo, mas Gum estava decidido a não enfrentar aquele assunto. Fez tudo o que pode para fugir da conversa. Num certo momento, ela simplesmente desistiu.
Ela deixa o barco de metal, pensa muito sobre aquela conversa insana, e decide mandar uma mensagem falando sobre o assunto. Ele fica em silêncio e diz que conversarão na próxima semana com tempo. Clara pensa que esse tempo é o grande problema.
Na semana seguinte, eles estão no barco de metal e muitos assuntos são tratados, os dois fogem do assunto. Clara está cansada e ele se sente aliviado. Na despedida ele a abraça e ela é distante. Parece que algo os impede de viverem toda aquela emoção que é percebida pelos que estão a volta, e que por vezes, eles tentam aniquilar. Os dois são covardes.
Clara toma uma decisão, deixará a porta do coração aberta. Quem sabe um novo ocupante, menos confuso e irritante... No momento seguinte, uma mensagem em seu celular, é de Gum que a convida para tomar um vinho, quanto tempo eles não fazem um programa como esse. Por um instante, ela pensa em recusar, mas aceita o convite inesperado.
Eles vão para um restaurante, comem uma massa e tomam vinho. Na saída ele para e a olha com ternura, se aproxima e a abraça. Clara se aninha naquele abraço e ele percebe que ela se entrega. As bocas se procuram, se tocam suavemente. Eles seguem para casa dela. Ele mostra uma garrafa de vinho, sorrindo.
_ Deixei no carro, achei que teríamos a oportunidade de saborear mais uma garrafa. – Diz Gum.
_ Mais uma?
_ Vamos aproveitar a noite, vamos nos divertir.
_ Prefiro curtir a noite e me divertir sóbria. – Responde Clara.
_ Eu quero curtir você. – Fala Gum, enquanto a abraça e beija.
Os dois se beijam ardentemente, os corpos se ajustam um ao outro, os gostos se misturam. O clima é de romance entre eles. Gum, com seu jeito rude se transforma nos momentos de intimidade. Ele a olha com ternura, a beija lentamente e passeia pelo corpo dela, com suaves toques.
Clara se entrega aos carinhos de Gum, entre eles existe uma sintonia harmoniosa. O amor e o sexo, fluem. Os beijos são ardentes, os corpos se entrelaçam, o desejo é latente. Eles se entregam ao amor. Gum a toma em seus braços e a leva para o quarto. Busca as taças de vinho. Ele para na porta e observa Clara na cama. Ela está numa linda camisola vermelha, que o deixa sem ar.
_ Você está inebriante, meu amor.
_ É para você.
_ Clara, você está me fazendo arriscar.
_ Estou te fazendo viver.
Ele sorri e se junta a ela. Clara o abraça e arranha suavemente as costas de Gum, que sente um arrepio percorrendo seu corpo. Ela se coloca atras dele e beija o pescoço enquanto suas mãos o ajudam a tirar a camisa. Ela toca suavemente a orelha dele e percorre o ombro e pescoço  com beijos. Ele se permite sentir cada toque dela, Clara se volta para ele, o abraça levando seu corpo, obrigando-o a deitar. Ela retira a calça de Gum, com toda delicadeza e com carinhos e beijos percorre o corpo dele, que se entrega.
Gum a abraça e a coloca deitada e a beija ardentemente. Ele vai desnudando Clara, com carinho e pequenos toques na pele macia dela. Ele desce a alça da camisola de Clara, enquanto beija se colo e percorre com os lábios molhados de desejo seus seios. Ele a segura com uma força na medida certa, evidenciando seu desejo. Depois percorre o corpo de Clara com os lábios, entre beijos e pequenas mordidas, ele a tortura de prazer.
Gum se deleita com os arrepios e gemidos de Clara, ao receber seus beijos e caricias. Ele a olha e a boca semiaberta dela recebe a dele, as línguas se procuram, se enroscam. As mãos entrelaçadas se apertam, os corpos estão prontos para o prazer, se tornam um só ser. Os movimentos são rítmicos, eles já sabem como dar prazer ao outro. A entrega é absoluta, Gum a deixa em êxtase. Ela se entrega a ele, que demonstra o quanto está envolvido e deixa seu corpo receber o de Clara. Os dois chegam ao ápice do prazer. Gum, surpreendentemente, sempre a toma para si depois do sexo.
Eles tomam banho juntos, e voltam para cama, ficam entrelaçados e assim adormecem. Na manhã seguinte, Clara o desperta com muitos beijos e uma linda bandeja de café da manhã. Ele se surpreende por ter dormido tão profundamente, fora de sua casa. Gum sempre dizia ter uma grande dificuldade de dormir em outra cama que não a sua. Clara estava realmente, fazendo com que Gum saísse de sua zona de conforto.
O dia começou com mais algumas horas de prazer e entrega... Seria uma nova fase do amor de Clara e Gum?




sábado, 8 de julho de 2017

Amores possíveis, paixões impossíveis - Parte XI



Tem um momento na vida que é necessário se reencontrar. Clara estava reflexiva, não sabia se seguiria por aquele caminho. Vivenciar um amor pela metade é pior do que não viver. Gum transitava entre o amor e suas amarras, deixando Clara incomodada. O amor deve ser vivido na sua integralidade, não pode ser vivido em doses homeopáticas. Amor é amor, um sentimento orgânico e inteiro, que não pode ser fragmentado. Amor é a fusão de dois indivíduos que geram um ser singular, uma vida em comunhão, um desejo único.
O amor é assombroso, chega e muda tudo de lugar, dá novos significados para vida, promove uma erupção de emoções, transforma a realidade circundante e dissolve a individualidade. Clara vivenciava emoções tão dispares ao lado de Gum, às vezes, transitando entre o mais límpido amor e o mais amargo rancor.
“A lua alta iluminava a noite de inverno, as estrelas cintilavam no céu, o frio era um convite para estar à dois, mas Clara estava só. A linda lua cheia iluminava o jardim da casa, o vento gélido trazia a tristeza, deixando o sentimento letárgico. O amor é assim, a falta de reciprocidade enrijece a alma e deixa um vazio por tudo aquilo que não se viveu.
_ A dor do amor não vivido é mais angustiante do que a dor de um rompimento. Quando algo já experimentado acaba, dói, mas amar algo que você não vivenciou dói infinitamente mais. Assim o desejo é deixar de amar... deixar a alma serena e dissipar o amor. – Pensou Clara.
Ela volta para dentro de sua casa, esperando que o calor do seu lar aqueça-lhe a alma. O coração está num impasse entre o amor sentido e a dor, vive no limiar da aflição. Clara fora imprudente, descobriu-se amando um homem tão ironicamente distante de tudo que ela sempre admirou, apenas a inteligência se encaixava no enredo das escolhas feitas por ela no passado. Amar com a intensidade que amava, alguém tão intimamente desconhecido, como fora possível?
Ela se encantou pelas semelhanças e diferenças, pelo jeito rustico, pelo cheiro de mar que ele carregava em sua pele, pelos cabelos grisalhos, pelo caminhar desajeitado e principalmente pela alma dura e inquieta.
Para Clara, o barco de metal era a prisão de Gum, representava algo de obscuro em sua alma.  A desorganização de sua vida, a falta de atitude em situações que geravam conflitos, demonstrava a inércia. Tão conflitante a personalidade dele, que era impossível decifrar.
Só que o amor precisa ser alimentado, em alguns momentos, o sofrimento que Clara insistia em não viver, aniquilava sua alma, se instalava em seu âmago sem pedir licença. Aquela noite estava sendo cruelmente dura, fria e triste. Talvez tenha compreendido que tudo o que Gum tinha para oferecer era nada perto do amor que sentia. Mais de vinte anos sem revisitar o tal amor e quando reencontra é algo tão sorrateiro e capaz de arrancar palpitações que dilaceram a alma.
Angustiada, solitária e amando ardentemente, Clara seguia experimentando seu conflitante sentimento. O que ansiava era viver novos momentos de cumplicidade, entrega e desejo ao lado de Gum, mas algo infringia esse enredo, fazendo-a tropegar na dura e impiedosa realidade.
Como é inusitado o desejo, a solidão que sentimos por alguém que está perto é muito mais avassaladora. É um querer que não pode ser alcançado, é estar tão perto e longe da felicidade que se vive à dois. Alguns momentos de prazer são insuficientes para conter o pranto. O desejo é andrajo, vil e ingrato quando solitariamente vivido na fantasia amorosa.
Naquela tarde, Clara olhou para Gum e sentiu que algo havia mudado, ele estava mais leve, solto e bem-humorado. As atitudes sempre tão previsíveis dele, demonstravam que tinha encontrado um refúgio amoroso, que estava explorando um novo horizonte do qual Clara não era personagem.
A intensidade de um sentimento não é a mesma para cada um dos envolvidos.  Ele que sempre permanecia horas em seu navio avistando o mar, agora estava muito mais em terra firme desbravando o asfalto e mudando seu ritmo de vida para experimentar algo. Como poderia ele ter esquecido os tórridos momentos de amor e entrega que viveram juntos? Havia ele trocado Clara por uma nova história?  O coração dela dizia que sim. As preocupações dele eram de quem tinha algo a esconder, ao mesmo tempo ele evidenciava para Clara que algo havia mudado, fazendo-a perceber que o estava perdendo. A dor dilacerava o coração, fazendo-a sucumbir ao desejo de aniquilar aquele amor desproporcional e que a obrigava a experimentar o sofrimento tão incomum em sua vida.
Viver o amor é aceitar a realidade, nem sempre de uma existência feliz, muitas vezes o inevitável e contraditório ressignifica a vida e o amor, promovendo uma trágica experiência. Clara sofre ao lembrar do olhar de Gum que desvendou o desejo dele por outra, o sorriso fácil, o corpo mais relaxado, evidenciava a leveza de sua alma.
_ Como o corpo diz muito do que sentimos, Gum estava diferente, talvez ele não perceba como os sinais demonstram seu desejo... _ Fala Clara em voz alta”.
Todos sabem que o amor é parte da trajetória da vida. Que se experimenta várias formas de amar ao longo da jornada, que nunca haverá um amor como outro. O amor assim como a morte, são presenças certas na caminhada e nunca alguém estará preparado para encara-los. O amor não vivido provoca uma dor pujante que só é abstraída quando se alcança o desejado, desamor.
Parecia que o fim estava próximo, Clara sempre dizia não ter vocação para o sofrimento. Estava ela decidida a findar com sua angustia, queria se despir daquele amor. Sabia que deveria cumprir um ritual, deixar o amor agonizar e morrer, depois leva-lo para o crematório e jogar as cinzas ao vento, para que nunca mais fosse capaz de reencontra-lo. Apesar da dramaticidade do momento, Clara procurava equilibrar seus sentimentos, estava decidida, queria varrer Gum de seu coração e de sua vida, definitivamente.
As intuições devem ser seguidas, elas dizem muito e quase sempre quando não se valoriza os sinais dados pela vida a decepção é certa... talvez, Gum estivesse vivenciando a loucura de uma nova paixão, e sem a vergonha que o impedia de deixar florescer seu sentimento por Clara, estava investido de alegria e empoderado pelo sentimento disposto a construir uma nova história de vida. Gum se transformava quando apaixonado, Clara já havia vivenciando um outro momento em que ele tinha se encantado por outra pessoa. A imersão na paixão era muito mais corriqueira do que a vivencia do amor, que sempre provocará modificações no outro. A paixão é intensa e fugaz, talvez muito mais simples de ser experimentada por Gum.
Clara acorda, começa a organizar seu dia e decide que mudará o rumo da sua historia com Gum...

Claudia Paschoal

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Amores possíveis, paixões impossíveis - Capítulo X


Gum continua com seus pensamentos, intrigado com seus sentimentos. Clara do outro lado da cidade se questiona sobre a intensidade do seu amor. Habitualmente, o amor faz ver qualidades no outro, que só o olhar amoroso identifica. A tendência é melhorar radicalmente a pessoa amada, e muitas vezes, comete-se o grave erro de moldar o outro aos próprios valores. Clara sempre achou melhor mostrar o pior de si, se a pessoa permanecesse seria brindada com o seu melhor. É da essência humana condenar tudo o que desagrada no outro, transformando-o, desconsiderando a singularidade da pessoa. 

Gum, com seu jeito autoritário, nunca havia feito críticas ferrenhas ao estilo de Clara, apesar dela ser tão diferente dele. Clara da mesma forma, sempre respeitou a falta de estilo e o jeito rústico de Gum, o que fortalecia a vitalidade do relacionamento. O amor deles não tinha qualquer pretensão de exercer opressão sobre o outro, não pedia nada, não exigia mudanças de nenhuma das partes. 
“O mar está agitado e Gum senta na praia e observa. Ele entendia como poucos os movimentos do mar. Quando olha para o lado vê uma sombra, se assusta, o coração dispara, sente um frio no estomago, é Clara. Ela senta ao lado dele e o olha com admiração.
_ Gosto de ver a sua relação com o mar. 
_ Ele me traz muitas respostas e me equilibra. – Responde Gum.
_ E qual pergunta você lançou para o mar? – Indaga Clara.
Gum sorri e respira profundamente, pensando o que dizer para Clara.
_ O que ele me disse? Disse para arriscar mais...
_ Uau! E você vai ouvir?
Gum toca suavemente na mão de Clara, retira os cabelos do rosto e beija o ombro dela. Clara olha com ternura para Gum. Os dois se olham e se procuram, Gum percorre o ombro com os lábios entre aberto, em direção ao pescoço. Clara com a respiração ofegante, move o corpo em direção ao dele, os dois se deitam lentamente na areia, o vento gélido provoca arrepios, mas o calor do desejo aquece os corpos. Ele toca os lábios dela, passando a língua lentamente. Ela recebe o toque dele, mordendo os próprios lábios impulsionada pelo desejo. Os lábios entreabertos de Clara recebem a língua de Gum, que encontra a dela e eles se beijam efusivamente 
Os dois não resistem ao desejo, a praia deserta é o cenário ideal para aquele momento de amor. Eles se entregam... A areia, os movimentos frenéticos dos corpos, os beijos... aquele homem forte e rústico, consegue ser tão amoroso e gentil nos momentos mais íntimos. 
Eles seguem para casa de Clara, Gum a pega pela cintura e a encosta na parede, beijando-a fortemente. Ela entrelaça suas pernas pela cintura dele, enquanto se beijam loucamente. Os corpos estão desejosos e sentem o calor daquela paixão ardente. O olhar de Gum é de ternura e medo, Clara tem a sensação de que ele não sabe se é capaz de proporcionar o prazer que ela espera, apesar dos outros encontros que já haviam ocorrido. Ela faz um afago nos cabelos dele, como se fosse para acalentar e o abraça fortemente. Ele à solta lentamente, Clara percebe que ele está confuso e que perdeu o desejo. Sem dizer nada, o segura pelas mãos e o leva até a sala. 
Gum está atônito, cabisbaixo e com a voz embargada. 
_ Me perdoe. – Diz ele.
_ Perdoar por quê? – Responde Clara.
_ Senti medo. 
Clara esboça uma fala e Gum interfere.
_ Senti medo de não te dar prazer, medo de não conseguir dizer o que sinto, medo de não ser capaz de viver esse sentimento. Medo, esse é o meu maior problema.
_ Meu querido, meu amor... não sofra antecipadamente. Não estou te pedindo para tomar nenhuma decisão. Entendo o seu medo, respeito o seu tempo. O que sinto por você não vai acabar assim. É algo intenso, único e mágico. Amo-te.
_ Clara, sabe que tenho vontade de gritar que também, amo-te. Mas, para assumir esse sentimento tenho tantas gavetas para arrumar, decisões para tomar.
Clara se aproxima, beija suavemente sua face, aperta suas mãos e o abraça. Gum respira profundamente, olha para ela e encosta o rosto no dela, com os olhos fechados, sente o rosto de Clara, a respiração quente que sai pelas narinas de Gum provoca pequenos arrepios, ele toca com lábios os olhos de Clara, com pequenos beijos vai perfazendo todo seu rosto, até encontrar sua boca. 
Gum beija a boca sedenta de Clara. Com os lábios molhados, o beijo suave, a respiração vai ganhando ritmo acelerado, ele encosta o corpo no dela e a leva para traz, deitando-a no sofá. Os beijos são vagarosos, as bocas se tocam e se afastam, entre um beijo e outro eles se olham como se buscassem a aprovação, estabelecendo uma cumplicidade. Ele toca os cabelos dela. Ela passa as mãos pelo tórax dele, sente o coração disparado. Gum está com corpo sobre o dela, ele passa a mão pelo seu rosto tirando o cabelo e a olha fixamente. A mão de Gum, desce lentamente pelo pescoço de Clara, enquanto a boca beija a orelha. Ele abre calmamente o primeiro botão da camisa dela, e passa o dedo pelo colo até o limite do decote. Clara crava suas mãos nas costas de Gum, e sobe arranhando suave e vagarosamente, provocando um arrepio. Os pés de Clara, sobem pelas pernas dele. Ele beija o pescoço, o colo os seios de Clara. Vai retirando a camisa dela, e a cada parte de corpo desnudo ele beija com a boca entreaberta como se a sugasse.
Ela retira a camiseta dele e sente o inconfundível cheiro de mar que ele carrega em sua pele. Gum apoia seu corpo sobre o dela, há uma troca de energia, de calor e de desejo. Ele retira o sutiã e admira os seios de Clara, tocando-os com as mãos. Gum segue percorrendo o corpo de Clara com os lábios entreabertos provocando reações. Ela beija suavemente os ombros dele e percorre com lábios o pescoço, passando pela orelha e chega até a boca. Clara, rapidamente se coloca sobre Gum, e devolve as caricias, passeia pelo corpo dele, tocando-o com as mãos e com os lábios, proporcionando-lhe prazer.
Ele delicadamente toma Clara para si, os corpos estão intimamente interligados, promovendo movimentos que começam lentos e ganham ritmo, os corpos estão colados. Clara está sobre Gum, ele pode beija-la e o faz. Agora é Gum quem está sobre Clara, e ele a olha como se olhasse uma presa, exerce seu domínio, mantendo movimentos mais rápidos e outros não. Ele procura nos olhos dela o prazer que está proporcionando ao mesmo tempo que vivencia o próprio prazer.
Gum, está decidido a mostrar que é o dominador, assim coloca seu corpo atrás do corpo de Clara, a segura fortemente pelos cabelos e a toca, beija as costas dela e a toma para si dominando-a. Novamente, ele alterna movimentos intensos e outros mais lentos, levando-a ao êxtase, ele mesmo já não consegue mais controlar seu desejo e os dois como numa perfeita simbiose, soltam gemidos de puro prazer. Gum a abraça. Ele sempre a leva para junto de seu corpo, após o ápice do desejo, algo incomum para um homem. 
Depois de um demorado banho, Clara ressurge. Ele a espera ainda de roupão, eles estão no quarto dela e conversam como não faziam há muito tempo. Ele está mais leve, o rosto menos tenso e mais disponível. Ela o ouve atentamente. Os dois, demonstram toda a sinergia que existe, são cumplices em muitas coisas. Ele busca um certo conforto nas palavras de estimulo de Clara, para vencer questões corriqueiras, que tem lhe tirado a paz. 
Depois de algum tempo decidem sair para almoçar juntos. Seguem no mesmo carro, algo diferente para eles, no caminho ele diz que foi maravilhoso tudo o que aconteceu, que está feliz e pleno e que... Gum não consegue dizer o que sente, ele tem um bloqueio, uma necessidade de fugir do sentimento. Clara ainda não conseguiu entender o motivo, mas ela está cada vez mais decidida a decifrar esse enigma. E ele parece estar cada vez mais propenso a se entregar ao sentimento que provoca tantos questionamentos”.
Uma relação amorosa é uma experiencia que exige entrega, abdicação de alguns conceitos e concessões mutuas. O amor é um ajuste do que se espera com as qualidades do outro, Clara e Gum, valorizavam tudo o que apreciavam no outro e respeitavam as diferenças, já que eram tão diferentemente idênticos. Essa disposição era fundamental para que o amor frutificasse, a intensidade do amor provoca uma síntese da qual brota um só ser, rompendo a barreira da individualidade e empoderando os entes amorosos para a construção de uma nova vida, conferindo novos significados e dissolvendo a subjetividade que aprisiona. 
O amor vai tomando forma e mudando vidas, Clara e Gum, se tornariam um só ser? Apesar de amar Gum e de valorizar os momentos de prazer com ele, Clara trazia em seu amago um emaranhado de dúvidas, tinha a certeza de que não conhecera todas as facetas dele.

Claudia Paschoal

Amores possíveis, paixões impossíveis - Capítulo IX





Gum aproximou-se da janela para ver a manhã invadir sua sala ampla e envidraçada. Encostou a cabeça no vidro e respirou profundamente, o ar da manhã fria encheu-lhe as narinas. Sentia-se exausto...
Poucas pessoas eram confiáveis e ele não tinha com quem dividir suas angustias. O vizinho que morava na casa ao lado apareceu em sua janela e também contemplava o amanhecer, Gum acenou e se recolheu para seu universo interior que estava borbulhando.
Tempos atrás havia ali uma vida mais agitada e animada, sempre rodeada de amigos. Olhou para trás e viu que a mesa de jantar agora estava repleta de objetos em total desordem. Pensou: - Minha casa é um reflexo de meu mundo interior, a desordem interna está impressa na desorganização de cada ambiente. 
Contemplou sua sala e percebeu que o caos havia se instalado. Como era possível suportar tamanha desordem? Foi para o banho, momento de introspecção. Enquanto a água percorria seu corpo naquela fria manhã, seu pensamento estava distante. Refletia sobre sua vida, suas escolhas, suas amizades, seus relacionamentos e sua inércia diante de situações incômodas. No entanto, já vivia aquela rotina e havia acomodado-se...
O amor sempre traz um colorido para a vida, e ele agradecia por ter recebido tal benção. Divertia-se com as lembranças dos encontros que teve com Clara. Considerava-se um privilegiado, apesar de tudo que estava passando.
Mantinha um relacionamento muito próximo com sua família, apesar da distância. As relações humanas são complexas e a dependência e controle sobre os movimentos do outro nunca são saudáveis. Já não sabia medir o tempo, talvez acontecesse há muito tempo. As mudanças acontecem, tudo se modifica, pensou. No momento seguinte, deu-se conta de que nada mudara.
Desejava viver intensamente, sentir sua alma pulsar, seu corpo vibrar, seu coração disparar, mas a inquietude de sua alma não era suficiente para que tomasse as rédeas de sua vida. Vivia um ciclo vicioso de dependência e co-dependência de suas crenças, parecia incapaz de realizar qualquer movimento para mudar aquela trajetória. O caminho traçado era o caminho a ser seguido, mesmo que não o levasse a plenitude e quietude que tanto buscava. 
Agora era o momento de decidir, sair em busca de sua felicidade ou permanecer naquela história plagiada de um conto, que não o fazia feliz? Voltou-se para seus pensamentos, que o mantinham distante. Não encontrava nada que retratasse melhor o sentimento dele do que as linda palavras de Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente”...
A prisão invisível que o mantinha no calabouço de seu barco, era assustadora quando vivenciada no dia-a-dia, passava pelas coisas mais corriqueiras da rotina diária às questões mais complexas. Era doentio, sintomático e assustador para quem assistia do lado de fora da janela de vidro.
Aquele pseudo controle o impedira de vivenciar o amor que estava sentindo. A insegurança e dificuldade de tomar decisões, que bem ou mal, era um mecanismo de defesa não fora eficiente, poupando-lhe de amar e sofrer. Não sabia ao certo como tudo começara, mas estava vivendo uma história confusa e apaixonante. Com muito carinho, desejo e um amor que Gum desconhecia. 
Uma inquietude sobre o futuro daquela relação estava deixando aquele doce casmurro com o coração em cacos. Acabara algumas vezes, por imposição das suas crenças, não que desejasse, mas não queria se machucar, deixando de vivenciar com Clara tudo o que imaginava em seus mais secretos sonhos. 
O medo de amar o fazia sentir como se faltasse uma parte de si. Sabia o quanto desejava alguns momentos de cumplicidade, amizade, carinho e muito prazer. As afinidades existiam, o cheiro da pele dela o hipnotizava, o olhar, os beijos que ele roubava, o calor daquele corpo quando tocava o seu o fazia desejar intensamente eternizar cada momento. Mais o toque do telefone o trouxe para a realidade, no momento mais feliz do seu dia, no calor da intimidade dos seus sonhos. Por mais que desejasse se entregar aquele amor, não conseguia se livras de suas correntes. 
A onipresença daquela mulher em seus pensamentos o incomodava. Ele se sentia vigiado pelos seus próprios pensamentos. Clara, em sua casa pensava no último encontro deles e nos tórridos momentos de prazer que viveram. Gum seguiu com seu carro para o trabalho, durante todo o seu trajeto Clara esteve presente, o deixando tenso. O que causava estranheza era a embriagues dele, o aceite sem questionamentos, como permitia aquela invasão em seus pensamentos? Para Gum, era uma coleira mental, era o poder que Clara exercia sobre ele. 
Chegou em seu barco de metal, analisou cada objeto espalhado pelo seu escritório. Há tantos anos convivia com aqueles móveis e naquela ambiência que não sabia mais avaliar onde sua história começara. Antes cada detalhe, cada objeto conhecido o fazia relembrar um momento, uma viagem, uma surpresa... Agora, eram apenas objetos espalhados desordenadamente e que não remetiam a nenhuma lembrança, nem doce, nem amarga, apenas o vazio... 
Clara pensa no amor por aquele homem tão diferente dela. Como ela se envolveu com alguém tão controlador, tão teimoso, tão cheio de limitações e com crenças que o aprisionam? Depois de tantos anos, ela se via amando novamente. Um amor tão confuso e instável que a desafiava. Clara sentia seu coração disparar e um frio no estomago, sempre que se aproximava de Gum, logo ela tão segura de si, sucumbindo a emoção. Era uma prova de que a mente não controla o corpo, como gostaria. Clara mesmo amando mantinha certa frieza racional, nem parecia uma mulher que desejava ardentemente, que era romântica e sonhadora. Ela relembra do momento em que ele tira sua camisa e fica inebriado de prazer ao sentir o cheiro de sua pele.
Gum se questionava de como o amor podia ser tão avassalador e tomar conta de sua vida e de todos os momentos de seu dia. O que disparava esse sentimento tão orgânico e astuto? _ Ela me complementa, o que falta em mim encontro na Clara: bom humor, otimismo e felicidade... O que encontro nela é o que busco encontrar para equilibrar minha vida.
A intensidade do amor entre Clara e Gum, promove uma fusão, como um só ser. Amor é êxtase, que aniquila a individualidade e é capaz de dissolver as amarras que aprisionam Gum, na sua própria caverna. Vivenciar uma experiencia libertadora de um amor intenso, permitindo que todas as loucuras da paixão se apoderem dessa história, deixando de lado a vergonha que impede o florescimento do amor é um desafio que pode modificar radicalmente o destino dos dois. 
Claudia Paschoal

sábado, 1 de julho de 2017

Capítulo VIII - Amores possíveis, paixões impossíveis


Capítulo VIII

Quando se ama o tempo parece não passar – pensava Clara ao caminhar pela praia. A praia estava vazia ampliando o volume de seu inquietante pensamento.
_ O amor deveria ser algo que só traz prazer e quando não correspondido, deveria ser simples o “desamar” – diz Clara em voz alta, desabafando com ela mesma.
Para alguns o amor é tão fatal e dilacerante que só provoca dor e sofrimento. Não existe um único amor, para a vida toda. Todos deveriam aprender que se o amor não dá certo, parte-se para outro relacionamento, sem tamanho sofrimento.
Gum estava em seu barco, no calabouço encurralado pelos seus sentimentos. Ele fugia do que sentia e deseja não encontrar Clara. Queria se fortalecer para lutar contra aquele sentimento que o faria estourar sua bolha, romper suas amordaças e sair da sua zona de conforto.
_ Se a Clara tivesse correspondido as minhas investidas no passado seria tudo mais fácil. Agora com esse sentimento que me tira o ar, me torna incapaz de raciocinar, parece castigo, ela é o meu castigo.
Gum vai para o mar, procura nas ondas repor suas energias. Clara recarrega suas energias caminhando pela areia. Ela sente um vazio n’alma. Ele uma angústia sufocante. Como pode o amor provocar tamanha desordem na vida de duas pessoas que se amam?
“Os dois se encontram. Clara estava caminhando quando vê Gum sair do mar, os dois se olham e se aproximam... Gum estava molhado, a pele salgada pela água do mar, ele segura levemente na mão de Clara e a puxa delicadamente, ela sente a pele molhada dele em seu corpo aquecido pelo sol. Ele a olha e a cumprimenta com um suave beijo no canto esquerdo da boca.
A respiração dele está ofegante, Clara fica paralisada, esperando que ele vá além daquele beijo roubado. Ele espera que ela fuja. Gum a abraça, sente o cheiro doce da pele dela, respira profundamente, sente que o corpo dela está entregue a ele. Ele toca o cabelo de Clara, a água que escorre dos cabelos dele, percorre as costas dela provocando um arrepio. O estremecer do corpo dela o faz vibrar.
A boca de Gum toca suavemente a nuca de Clara, enquanto ela passa as mãos pelas costas dele. Ela toca a orelha dele com os lábios, provocando-o. A boca entre aberta procura pela boca dela, os lábios se tocam com força. Ele morde delicadamente os lábios dela, ela suga os lábios dele, ele toca com a ponta da língua os lábios de Clara, ela responde deixando que sua língua toque a dele. O beijo é ardente. As mãos se apertam, demonstrando o tamanho do desejo que existe entre eles.
Gum a convida para ir até sua casa, eles seguem juntos, lado a lado. Ele a convida para tomar um banho relaxante, ela aceita. A água quente do chuveiro esquenta ainda mais o clima de desejo. Ele passa o sabonete pelas costas dela, enquanto a beija. Os corpos nus, se enroscam, ela se vira para ele e olha nos olhos. Um diálogo sem palavras, apenas olhares e movimentos.
O movimento dos corpos refletido no vidro do box, a pele arrepiada, a respiração, o gosto do outro. Clara e Gum saem do banho e vão para o quarto, é a primeira vez que ela vai a casa dele. Tudo parece estranho para ela. Eles se beijam defronte ao espelho, as toalhas caem no chão, eles se beijam ardentemente. Gum toca o rosto de Clara, a beija e deixa que sua boca percorra todo o corpo dela, beijando, mordiscando e passando a língua suavemente pela pele de Clara. Ele se delicia com os movimentos de prazer que provoca, enquanto se deleita no desenho daquele corpo.
Clara passa as unhas, suavemente, pelas costas de Gum. Entrelaça suas pernas nas dele. Ela retribui as caricias, e passeia pelo corpo dele, com beijos e pequenos toques com a ponta da língua. Ele se contorce de prazer. Os dois se olham e ela concede a ele o direito de tê-la. Ele a obedece, e a toma para si, os corpos entram num frenético movimento rítmico. Há uma energia pulsante, que os faz vibrar na mesma sintonia. O vai e vem dos corpos, os gemidos, as bocas se procuram, os olhares e as frase ditas entre eles, testemunham momentos do mais profundo prazer.
Eles se entregam ao desejo, se amam ardentemente... encontram o êxtase. Os corpos caídos na cama, exauridos pelo prazer. Ele a busca para perto de si, a abraça e surpreendentemente diz:
_ Quero você.
Clara fica sem entender o que, exatamente, significa aquele querer. Ele a beija com o mesmo desejo de antes daqueles tórridos momentos de prazer. Ela nem consegue pensar sobre o que estava acontecendo. Ele a toma em seus braços e a beija. Clara sente que o amor é inebriante. Gum se surpreende com tanto desejo, ele já não era mais um jovem, como aquela mulher podia provocar tamanha disposição?
Eles permanecem na cama, se acariciando, beijando, desejando e amando. A amanhã passa rapidamente sem que eles saiam do quarto, uma única e rápida escapadela para trazer um suco e frutas para repor as energias gastas. Clara olha para ele, e vê que apesar da idade e da forma física ele a atrai. Naquele quarto Gum é outro homem, apaixonado, entregue, viril e apaixonante.
Ele também a contempla, vê que apesar das imperfeições naturais a uma mulher com mais de 40 anos, elas ainda mantem um corpo que atrai olhares e o desejo dele.
_ O que vamos fazer? _ pergunta Gum
_ Como assim?
_ Como vamos fazer com tudo isso que está acontecendo? – Explica Gum.
_ Vamos viver intensamente. _ Responde Clara”.
Clara olha para o mar e tem a certeza que está preparada para tudo. Gum deixa o mar focado nos afazeres do dia...
A vida segue seu rumo, cada um com seus pensamentos errantes, com seus desejos ocultos e com muitos desencontros. O amor, um dia venceria aquela intransponível barreira do medo... Apesar da dor que provoca no outro, ele traz uma felicidade que só pode vir do momento de entrega ao tão temido amor...



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Capítulo VII - Amores possíveis, paixões impossíveis


Capítulo VII

No cenário, o barco de metal, estático em seu porto, num emaranhado de emoções e com pesadas ancoras que o mantem paralisado, Gum está prostrado em seu convés, buscando respostas para suas angustias.
O amor é composto por 3 elementos: eu, ele e nós. Para que exista amor, tem que haver o “nós”, os sonhos sonhados juntos, os desejos que caminham para algum lugar que seja bom para os dois.
“Gum sorriu e passou a mão pelo rosto. Clara o admira, mesmo sorrindo ele demonstrava uma tristeza em seu olhar, uma nuvem cinza parecia acompanha-lo por toda a parte. Ele olhou para Clara como se quisesse dizer algo importante. Mas isso ele não conseguiu. Logo saiu em fuga.
Clara sorriu percebendo as emoções que provoca em Gum, mas logo ficara séria e com olhos tristes ao ver que ele sofria com medo que sentia e o aprisionava.
_ Por que você não solta as amarras? – perguntou ela.
_ Não sei do que você está falando. Não sei o que espera que eu responda. – Disse Gum irritadiço.
_ Quero que diga o que está sentindo, que tal?
_ Não sei o que dizer. – respondeu ele nitidamente tenso.
_ Não sabe?
_ Não, não sei o que dizer. Clara eu...
Ela olhou nos olhos dele e se aproximou, colocando suas mãos sobre o coração dele e dizendo:
_ Acalme-se! Apenas sinta e deixe acontecer.
Gum respirou profundamente, a olhou abraçou fortemente.
_ Você sabe o que sinto por você, só não sei como fazer.
_ Gum, meu querido! Apenas diga o que sente, comece me falando o que sente.
_ Já falei e você me ignorou.
_ Era outra situação, você sabe disso. – respondeu Clara, com certa indignação.
_ Naquele momento estava apaixonado, inebriado e encorajado. Agora, o que sinto é muito diferente. Naquele momento eu sabia exatamente o que esperar daquele sentimento.
_ Agora não sabe se sente mais?
_ Sei que sinto algo muito diferente. Não é paixão. Tenho medo, porque não entendo o que sinto. Tenho medo de ficar ridículo, bobo e inconsequente. Tenho medo da dor.
_ Você está com medo de viver algo tão belo?
_ Belo? Como você sabe que é belo?
_ Você tem razão, não sei. Também não sentia algo assim, desde os meus 20 e poucos anos. O que sei é que sinto com intensidade e sem medo.
_ Sou covarde, quero fugir do que estou sentindo. Tenho medo de me entregar a você e depois sofrer.
_ E agora você não está sofrendo?
_ Sim, sofro muito por não poder gritar para todos que...
_ Que?
_ Você sabe, Clara. Você sabe.
_ Gum, eu também...
Os dois se olham e são abruptamente interrompidos por um desavisado que chega para uma inútil conversa com Gum, o capitão daquela nau”.

Assim é o amor... complexo, intenso e entre Clara e Gum, tenso. Por que tem que ser assim? É um querer sem fim... ela se questionava de como podia amar intensamente aquele homem rustico e mal-educado, agressivo e desenxabido.
A paixão é assim, desejo pelo outro, sem que exista a intenção de se estabelecer um relacionamento duradouro. O amor pode começar com uma paixão, mas vai além. O amor vem com um desejo de construir o “nós”, isso amedrontava Gum, porque ele não sabia o que era amar. Ele sempre fora uma pessoa individualista e esse desejo compartilhado era algo novo para Gum.
 Não há vida sem dor, e para alguns a felicidade é um instante de prazer, um momento sem dor. O amor leva à dor, ao sofrimento, quando você não é correspondido, a ausência de ter aquilo que se ama, traz um vazio que promove o sofrimento. Não viver o amor pode evitar a dor, mas a dor é a ausência da felicidade, do desejo alcançado e o amor é o caminho para se alcançar a felicidade e se ter alguém para construir o “nós”.
Clara estava cansada daquela caminhada, Gum parecia incapaz de vencer suas amarras, sair de sua caverna, estourar a bolha e viver o amor, mesmo que fossem para ter apenas alguns momentos de prazer ou de ausência de dor...

Claudia Paschoal
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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Parte VI

Como é difícil entender aquele casmurro ser. Clara acredita que ele vai romper o medo e se entregar àquele sentimento que os une e os afasta.  Ela não entende como fora capaz de amar tanto, de desejar tanto...
_ Parece castigo, acreditei que nunca mais amaria alguém assim.  _ Diz Clara em voz alta.
Ela escolhe uma roupa, pensa em algo que a deixe sensual, apesar da inconstância dele procura sempre surpreendê-lo. Aquele sentimento estava por deixa-la sem rumo, como se todas suas crenças fossem derrubadas.
Ela segue para o trabalho, algumas mudanças de plano a deixam sozinha por horas.
“Será que em algum momento aquele barco de metal desbravaria o recife do medo? O amor é capaz de vencer barreiras, mas seria suficiente para ele lutar pelo que sente?
Um homem preso as amarras de seus conceitos e preconceitos, que não se permite, dificilmente viveria um amor tórrido. 
Gum, o casmurro capitão daquele barco que não zarpava havia muito tempo de seu porto, não seria capaz de arriscar-se e desbravar novos mares”
O tempo é curto e logo, Clara é interrompida e chamada para realidade.
A paixão é uma fase que passa e muda tudo abruptamente, aquele desejo ardente, aquela sensação mágica de que estar ao lado do outro é o suficiente para ser feliz, muda. Já o amor ele completa, é um bem querer sem cobranças, sem desejo de monopolizar o outro.  Ele entendia o amor como uma relação onde havia um dominante, ele, e o dominado, no caso a Clara. Só que nesse caso o dominado não precisava tanto do outro, como desejava o dominador, que estava sempre insatisfeito, desejava ter suas vontades atendidas e tinha um lado narcisista que precisava ser idolatrado. Gum não percebia que o dominador se tornava obsessivo e que a postura de domínio dele provocava uma asfixia em Clara.
Naquele momento, a relação deles enfrentava uma tormenta. Clara, o desejava por tudo aquilo que ele não era e por tudo que ele representava de novo para ela. Gum a desejava, talvez, por ela estar perto demais e por saber que outros também a desejavam. Será que Gum estava apenas exercitando seu lado de macho alfa?
Clara deveria aniquilar aquele sentimento e partir para outros mares. Ela sabia que tinham outros olhares que a cobiçavam, não fazia sentido ficar parada naquele porto, esperando que aquele capitão do barco que não zarpava, tomasse uma decisão.
Clara, sai para almoçar com Gum. Eles estão acompanhados de um amigo, o comportamento dos dois é de casal, todos diziam isso, que se comportavam como um casal, só que não eram exatamente um casal. Eram duas pessoas que lutavam contra seus medos e inseguranças, tentando sufocar os sentimentos, desejos e amor que alimentavam um pelo outro. O orgulho vencia.
“Nesses momentos de dúvida, ele saia para o mar. Ali encontrava conforto e quietude para suas angustias, aquele contato homem-natureza, o acalmava. Ele sempre gostou da simplicidade da vida. Os cabelos grisalhos e o rosto fino, um tanto flácido e cinzento carregavam as sombras das tormentas que ele trazia em seu amago. Apesar do corpo dar sinais de sua idade, tinha uma presença robusta e ereta, o olhar amargo, a aparência desleixada, as rugas e sulcos, os cabelos despenteados e as roupas que ele vestia, demonstravam que o tempo havia passado.
Ele desejava beija-la ardente e efusivamente. Ela era a mulher que ele desejava.
_ Como quero tê-la em meus braços... – Diz em voz alta.
_ Quem você quer em seus braços? – pergunta Clara, que chega deixando Gum atônito.
_ Não vi você chegando, o que aconteceu?
_ Você não respondeu minha pergunta. – Diz Clara, olhando fixamente para Gum.
_ Não sei do que você está falando. Se veio até aqui é porque precisa conversar sobre alguma coisa, o que é?
Clara sorri e diz:
_ Claro, você quando se sente acuado reage sempre da mesma forma.
Gum a olha e pensa em resolver aquele desejo. – Vou esquecer todas as minhas frustrações do passado e me entregar.  As velas do barco batem com o vento que sopra, provocando um arrepio pelo corpo dele. Ele sentiu muito medo, ficou paralisado.
Clara o admirava, percebendo que havia um sofrimento, uma guerra interna em andamento.
_ Sabe o que quero?
_ Não, mas adoraria saber. _ responde Clara.
_ Quero...
Gum se aproxima de Clara, toca seu rosto levemente e a beija ardentemente. Os dois se entregam ao desejo...
_ Não sei mais como fazer. É maçante a minha tentativa de esconder o que desejo, quando acordo, lembro de você. Quando me deito a noite, lembro de você. Pobre de mim, que sofro calado e que sinto tanto desejo. E me obrigo a manter as aparências.
_ Quero gritar para todos que a amo.
Um som alto no convés, rompeu o sonho dele. Ao longe, ele fitou aqueles olhos admiráveis e felizes que percorreram seu corpo até encontrar com os olhos pequenos e apertados. Eles se abraçaram e Gum rouba-lhe um beijo. Ela ri gostosamente e o abraça novamente.
_ Você é o resmungão mais adorável que conheço. – Diz rindo e brincando com ele.
 _ Devo dizer que tem quem goste.
_Sério? Quem?
_ Você... – Diz Gum”.
Clara olha para sala e o silencia a toca profundamente, ela se senta defronte de seu notebook e pensa em reescrever aquela história de amor, que naquele momento está mais para desamor.
O difícil quando se ama é perceber que a relação chegara ao fim, a dor da ruptura é tão grande quanto a dor do desamor... Não há culpados. Uma ruptura pode ser o início de momentos felizes, não antes de uma boa dose de sofrimento. Podem duas pessoas estarem predestinadas uma para outra? Pode o amor vencer o orgulho e as barreiras internas de alguém cheio de amarras?

Não sei responder, só sei que amo... Como são doces os beijos roubados. 


Claudia Paschoal



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sexta-feira, 23 de junho de 2017

Amores possíveis, paixões impossíveis 

Parte I
Um dia os olhares se cruzaram, em meio a tantas pessoas, ele chamou atenção, apesar do jeito desajeitado, desarrumado e mal-humorado. Como alguém tão desenxabido podia despertar atenção?  Outros encontros ocorreram anos antes, ele não tinha nenhum registro, o que a deixava confortável, com certa vantagem.
O tempo passou, um ano depois, pensamentos e coração ocupados. Naquela noite, o notebook é seu confidente e companheiro, uma taça de vinho tinto a encorajava a escrever... O frio incomoda, o pensamento inquieto, os sentimentos confusos. Um emaranhado de emoções, sensações e medos, de todos os lados.
No início ele demonstrava todo seu desejo, os toques, os abraços e os beijos roubados, _ como são doces os beijos roubados. A maturidade lhe favorecia, um certo ar de mistério, um jeito rústico de ser. Aquele homem que apesar de um coração solidário, hora ou outra era ríspido, rude e indiferente, vivia um carrossel de emoções e desejos, que provocava mudanças bruscas de humor. O mal humor era seu companheiro diário, a insatisfação e o medo de declarar seus sentimentos, o levavam para sua caverna impenetrável. Lá se mantinha acolhido e protegido de si mesmo.
Seu coração disparava, sentia um frio na barriga, aquela emoção provocava arrepios, o abraço era longo e apertado, a respiração ofegante demonstrava a emoção a flor da pele. Era uma paixão, nunca haverá amor sem paixão, mas poderá haver paixão sem amor.  O sentimento intenso, denso e arrebatador não era esperado. Aquela ânsia, o desejo, a sensação de plenitude que sentia ao olhar para ela, o deixava confuso, sentimentos complexos com quais ele não sabia lidar, a ausência de controle era algo que o deixava sem rumo, frágil e amedrontado.
Ela lembrava de alguns momentos que viveram nos últimos meses. Como aquele homem tão casmurro podia ser, vez ou outra, tão disponível, romântico e sensível às emoções? Por que ela nunca se permitiu viver aquele sentimento? Era paixão versus amor? Ele estava apaixonado e ela o amava? Ele repetira que havia uma tênue linha entre o amor e o ódio, sempre que ela dizia que ele a odiava. Algumas vezes ele, entre brincadeiras de amigos, dizia que a amava. Ela não acreditava.
Fitou a sala vazia, pensou em abandonar seu notebook e ir para cama, o controle remoto da TV a fez passear entre o jogo do Corinthians e os canais de música. Uma música chamou sua atenção, em algum momento eles ouviram juntos aquela melodia. Um suspiro profundo como se fosse possível sentir o cheiro dele. Fechou os olhos e foi capaz de avistar o rosto, os cabelos grisalhos, a pele descuidada, o ar rustico, característica marcante. Ah! o cheiro de mar na pele...
Ela sai, no carro uma música a faz relembrar de alguns momentos intensos. A música: Quem de nós dois, de Ana Carolina diz: “Eu e você, não é assim tão complicado, não é difícil perceber, quem de nós dois vai dizer que é impossível, o amor acontecer”. Ela sorri e pensa quem diria que eles se apaixonariam...  A música continua:  “se eu disser que já nem sinto nada, que a estrada sem você é mais segura. Eu sei, você vai rir da minha cara, eu já conheço o teu sorriso, leio o teu olhar. Teu sorriso é só disfarce e eu já nem preciso... Sinto dizer que amo mesmo, tá ruim pra disfarçar. Está ruim para disfarçar o que eles sentem um pelo outro. Ele conhece muito dela, o que a incomoda. Ela sabe muito bem quando ele tentar disfarçar, já sabe quando ele está de mal humor e quanto ele fala com o olhar.
Nos momentos seguintes ela se delicia com suas lembranças daqueles momentos que viveram juntos. Ela lembra dos dois, ela sentia frio e deixou seus pés embaixo das pernas dele enquanto bisbilhotavam no computador. Depois de uma conversa com um e outro amigo, eles se aproximam, os corpos estremecem, os olhos se cruzam, os rostos se tocam suavemente, sentem a respiração um do outro.
As mãos entrelaçadas, os corpos se encostam e eles se entregam ao desejo, os lábios se roçam suavemente, a boca entreaberta, um toque suave, o beijo é ardente, intenso e provoca um desejo incontrolável. Eles tentam resistir, de modo quase infantil, sem ao menos entenderem porque estavam agindo assim...
A porta se fecha, um último olhar. Depois, uma mensagem provocante e uma resposta de quem está embaraçado. No dia seguinte, apenas conversas profissionais. Como se nada houvesse acontecido. Eles se encontravam todos os dias, os beijos roubados se tornam uma marca da relação deles. Pouco se importavam com os olhares dos outros, eles esqueciam que deviam ser discretos. Mas o desejo era mais forte...
A essa altura, a taça de vinho já havia sido substituída por uma big xícara de chá de hortelã. A madrugada apresentava filmes idiotas, as músicas eram tediosas. Uma comédia, ela para e pensa em assistir, mas pensar nele era mais interessante, ela continua escrevendo e navegando por seus pensamentos e sentimentos...
O dia está amanhecendo e ela abstraída em seus devaneios...

Parte II
O dia amanheceu, ela está absorta em seus compromissos, entre muitas anotações e uma agenda corrida,  toma uma xícara de café e pensa em seu amor. Ela ri sozinha ao lembrar do jeito atrapalhado e desajeitado de seu amado. Como o amor pode aproximar duas pessoas tão diferentes? Como duas pessoas tão diferentes podem ser tão parecidas?
Para muitas pessoas eles eram parecidos, enquanto ela achava que eram opostos. Ele identificava as semelhanças que existiam entre eles, talvez sentia-se incomodado ao ver nela um reflexo dele mesmo.  Seria tão evidente o sentimento que nutriam um pelo outro? Ela acreditava que as pessoas próximas não percebiam os gestos, os cuidados, os beijos roubados e as provocações que faziam, procurava tomar cuidado com o olhar, sempre fugia do olhar dele. Tinha certeza que o olhar os denunciaria.
Muitas noites eles conversavam até tarde, compartilhavam as angústias do dia, dividiam situações que vivenciavam juntos, procuravam no outro as respostas para as dúvidas e o apoio para as tomadas de decisões. Eram parceiros de trabalho, naquele momento. Dividiam objetivos, propostas e ideais, eram cúmplices e enamorados. Quando ele estava irritado e mal-humorado, ela era seu porto seguro, o jeito de falar o deixava mais tranquilo, calmo. Talvez ela fosse capaz de mostrar que a vida pode ser vivida com mais amor, menos cobrança e mais leveza.
O dia passa rapidamente, eles não se encontram. O telefone dela toca. A voz do outro lado é irritadiça:
 _ Onde você está? – Diz ele.
Ela respira profundamente, já havia mencionado o quanto a irritava esse questionamento.
_ Na cidade. – Responde ela com certa ironia.
Ele pede que ela o aguarde, precisa conversar.
Ele chega, exausto e irritado. Despeja sobre ela todas as angustias do dia e as irritações. Muitas coisas menores o deixavam irritado. Ela se perguntava se era imaturidade, ou se ele estava tão sensível que pequenos desencontros do dia a dia, causavam nele tamanha instabilidade. Como sempre ocorria, ela o acalmou, mostrou novos ângulos para os problemas trazidos. E horas depois eles riam dele e daqueles que o haviam irritado tanto. Ela estava feliz, conseguia rapidamente faze-lo se acalmar, mas não era sempre assim.
No início, quando ele se irritava ela também se irritava. E eles discutiam ferrenhamente, desligavam o telefone enquanto o outro falava, gritavam um com o outro, por pouco não se agrediam fisicamente. Ela lembra de uma situação em que ele não queria que ela fizesse algo corriqueiro, e para impedi-la de passar segurou-a pelo braço com tamanha força que deixou uma marca. Ela se irritou e quase bateu nele, mas foi interrompida por um amigo que perguntou rindo: _ vocês vão chegar as vias de fato? Devo ficar aqui ou querem que eu saia?
Eles se olharam e riram.
Ela chega em sua casa, toma um banho quente, a noite está fria. Prepara um delicioso caldo de legumes, pega uma taça de vinho tinto e vai para sua sala. Seu fiel confidente, o notebook, já está a sua espera. Ela busca um cobertor porque a noite está gelada. E começa a escrever um pouco mais sobre a história deles:
“O cenário era hipnotizante. O mar verde se encontrava com o azul do céu no horizonte até onde o olhar não alcançara. A brisa que soprava do mar mantinha o ambiente agradável e aconchegante. O barco de metal era imponente e altivo, mantinha-se estático e envolvente, todos percebiam sua grandiosidade. Era um monumento que representava o poder e se harmonizava com o meio onde se encontrava. Para alguns uma evolução, para outros um marco negativo tingindo a beleza daquele cenário estonteante.
O fato é que o barco de metal, tinha em seu comando um capitão que há muito não navegava por outros mares, mantinha-se aprisionado como seu barco. A rigidez do metal, era a mesma do coração de seu capitão. O barco de metal trazia em sua história disputas, lutas e vitórias. Construir um barco era algo inusitado e fora um desafio.
O barco estava desgastado pelo tempo que havia deixado muitas marcas em seu casco. Na sala de comando, estava seu capitão, que acabara de tirar seu casaco, e impaciente olhava para suas anotações e afazeres. Um passo no convés o fez gelar, conhecia aquele caminhar.  O sino logo tocou obrigando-o a sair de seu esconderijo. Foi receber aquela visita irritantemente esperada. Resmungava baixinho enquanto caminhava, não conseguia entender porque ela era tão bem-humorada, como aquilo o intrigava. Para evitar se desgastar mais uma vez, decidiu papaguear sem parar. Ela o observava perguntando-se sobre tamanha agitação. Eles revezavam momentos de conversas desconexas com silêncio absoluto, onde a troca de olhares dizia muito mais sobre as emoções que invadiam aquele convés.
O barco estava sempre desorganizado e ela rapidamente passava os olhos por sua volta e se questionava se a bagunça no convés era a mesmo que ele tinha internamente. Talvez aquele jeito desajeitado, representasse muito mais daquela personalidade, possessiva. Algo naquele casmurro atraía amigos, parentes, conhecidos e membros da sociedade, sua personalidade marcante talvez fosse o decifrar desta proeza. Mas aquela casca grossa não a enganava, atrás daquela imagem havia uma alma inquieta e um tanto infeliz. 
Anos após anos, o barco de metal despertava a atenção. Ele mesmo muitas vezes, confundia-se com a data de inauguração de seu barco, que majestosamente rompera aquele ambiente e se prendera àquele porto e lá ficara. Os dois andares, imponentes abrigavam inúmeras cabines com espaço para muitos sonhos. Bem verdade que alguns duravam pouco tempo, outros perseveravam e venciam.
         _ quantos anos? Dez? – Perguntou ele em voz alta.
         _ Quinze anos. _ lembrou sua interlocutora. 
Ela sabia muito bem quanto tempo aquele barco estava ali, já que sua chegada provocara em sua vida grandes e marcantes mudanças, quase todas negativas. Como ela esqueceria o tempo? Ele era um homem jovem, à época da chegada de seu barco de metal, talvez mais viril e destemido que agora. E certamente não percebera o impacto que seu barco causara na vizinhança.
Ele advinha de uma família tradicional e nunca experimentara limitações e dificuldades, talvez isso limitasse sua percepção. Apesar de manter um modo de vida simples, gostava da boa mesa, não abria mão de uma cerveja de qualidade. Viajava anualmente e gostava de bons espetáculos, festas e pequenas reuniões com amigos escolhidos a dedo. Apesar da vida agitada, refugiava-se sempre em sua sala secreta, que mandara fazer em seu barco de metal, estrategicamente próximo da dispensa de alimentos, que o mantinha em seu eufórico ostracismo.
Ela continuava ali, paralisada. Ele era muito rabugento sob o olhar dela. E tinha tamanha dificuldade em lidar com quem o contrariava. Ela era uma prova disso. Quantas vezes haviam discutido severamente, após ela discordar do ponto de vista dele. Ele não admitia ser contestado, era atroz. A façanha era manter-se na mais perfeita ordem, dentro de sua habitual desordem. Pequenas mudanças na rota, causavam-lhe gigantescos dissabores.
Aquela estrutura tão imponente e garbosa traduzia a robustez daquela alma, considerava ela. Tinha ele motivo para estar tão agitado aquele dia. Algo incomodava aquele homem frio e de alma controladora. Aquela nau era um sonho realizado, uma mudança na rotina dele e na vida daqueles que a circundavam.
A praia trazia uma nostalgia, por vezes. O mar o atraia e ele desfrutava das sensações que a água salgada provocava em sua pele. Procurava levar um pouco do mar consigo, sempre que precisava voltar-se para suas atividades cotidianas. Se dependesse dele passaria mais tempo no mar.
A praia, às vezes, parecia morta, sem vida. Alguém falava com ele, as palavras murmuradas não eram ouvidas. Palavras ditas levadas pelo vento, sentimento obscuro. Um pensamento deixou seu coração estático, o vento calou-se, a natureza sem vida, os pássaros não cantavam e o mar não mais murmurava. Ele sentou-se em frente à praia e ficou esperando que o mar lhe dissesse o que fazer. Como sairia daquela tormenta?
Voltou para sua nau, escondeu-se em sua sala secreta e de olhos fechados procurou respostas para seus sentimentos. O pensamento voava, imaginou-se caminhando naquela imensidão de mãos dadas... Como alguém conseguira se infiltrar em sua viagem sem pedir licença deixando seu mar revolto? O coração em pedaços, cacos de emoção. Um passo em seu convés devolveu-lhe instantaneamente à vida. Ele sorriu, como se os ventos úmidos do mar, soprassem uma calmaria fazendo-o renascer.
As velas altas e robustas do barco cortavam a beleza daquela praia. O sol brando, reinava. Ele em sua solidão, calado. O inverno soprava, agosto amargo, em seu coração a infatigável solidão era voraz. O barco estático representava o magnifico sonho, que ele venerava. A realidade o fazia pressentir que o sonho que hipnotizava sua alma, seu ser e seu desejo, apesar de leva-lo a momentos poéticos, era uma ironia. No seu âmago ferve o desejo de sonhar e viver com ela um inebriante sonho. Quantas vezes sua nau foi cenário de uma noite torrencial de amor?
Seu barco tinha um poder de encantar e ele sabia disso. Aquele imenso barco rasgava as barreiras do tempo e do espaço, suas luzes rompiam a noite escura. Euforicamente, integrava o sonho e a realidade. Um sonho irreal de um barco de metal que não navegava por tempestades ou águas calmas.

Ao navegar e desbravar novos mares, seu coração era traidor que anonimamente encontrava pretextos para fantasiar novas façanhas. Ardilosamente, ele buscava em seu emaranhado de sentimentos, encontrar um novo momento para atrair para seus aposentos aquela que provocara esse desejo de romper novos mares.
Aquele mar aberto, convidava sua velha nau para uma nova experiência. Uma sinfonia invadiu-lhe a alma, em terra firme lembrou-se do estardalhaço que aquela aventura promoveria em sua patética vida. Por muitos anos, manteve-se amordaçado em sua cabine, como uma ostra grudada em uma pedra, que nem o mar revolto era capaz de move-la. Assombrosamente, aquele imenso barco de metal não fora suficiente para poupa-lo de tamanha angustia, seu coração transbordava de emoção e tudo que ele desejava era aniquilar aquele sentimento que estava impiedosamente devastando seu âmago. 
Sua inquietude foi quebrada por um de seus marujos.
         _ Capitão? Pensei que já havia zarpado.
         _ Sabe que gosto de apreciar o mar a noite.
Ficou ele a olhar o mar, vestido de seu jeito desarrumado, enquanto seu marujo saia para não incomodar seus pensamentos. Ele dirigiu-se as escadas e desceu seus degraus esperando encontrar em sua sala secreta algo que arrancasse bruscamente aquele pensamento delirante. Queria dissipar aquela névoa que almejava seu porto, gelando sua alma. Como era sorrateiro o tal amor? Ele que desdenhou da paixão, dizendo-se impermeável ao sentimentalismo, agora sentia um espectro plácido enredando sua vida. Potencialmente causando-lhe o desejo de morrer.
         _ Queria beija-la. Até mesmo ama-la.
Continua sua inspeção pelo convés. Percebe que o casco precisara de reparos, alguns danos eram vigorosos. Passos na escada em direção a ele. A lua, escondida entre nuvens, o vento frio e a névoa sobre o mar deixavam o cenário sombrio. As madeiras da escada rangeram e o vento gélido soprou em seu pescoço, provocando-lhe um tremor.
         _ Estou aqui para resgatá-lo. – Ela chega intimando.
         _ Não preciso de resgate, estou muito bem aqui. Deixe-me. – Diz ele agressivamente.
         _ Sempre gentil, doce como fel. – Responde ela sorrindo.
         _ Estou angustiado e quero ficar só. – Sentencia ele com uma voz triste.
         _ Seja feita assim a sua vontade.
Ele a leva até a saída, sendo extremamente desagradável, demonstrando toda sua irritação e desconforto. Ela sabia que ele estava com medo, e de certa forma divertia-se com isso.
         _ Não precisa tanta irritação – disse em tom amável e irônico.  Vai permanecer em sua masmorra?
         _ Já estou irritado, você sabe me deixar assim, com maestria. Vou. Permanecerei aqui.
Ela beija-lhe suavemente os lábios, sorri e sai.
A luz fraca sobre sua mesa, o deixa mais pálido. Percebeu que sua noite seria longa. Aquele beijo faria parte de sua longa madrugada. Olhou para o céu tentando encontrar a lua e as estrelas para que aquele momento fosse rapidamente esquecido. Sentiu-se um covarde, queria tanto aquele beijo e deixou-a partir. Uma música ao fundo o incomodou.
As noites tinham seus mistérios, o outono apresentava seus encantos e ele estava inquieto com seus pensamentos errantes. Ele olhou para o céu nublado e pensou no beijo que ele tanto queria e que por medo deixou escapar.

Há anos atrás, ele era um homem forte, tipo atlético que provocava reações nas mulheres de corpos dourados que se banhavam naquelas praias. A praia em que mantinha seu barco ancorado, outrora tinha sido muito bem frequentada pela alta sociedade paulistana. Ele era um jovem de corpo dourado, cabelos cacheados que estavam sempre desarrumados, vestido com uma bermuda e chinelos, sem camiseta para mostrar seu corpo bem definido e sempre queimado de sol. Doces lembranças aquelas.
Fechou o casaco e olhou para o convés de seu barco de metal.
         _ O mar está aqui tão perto e meu barco não pode navegar. Eu a desejo tanto e não posso avançar...
Ele parou, na porta de seu escritório, ouviu a música ao longe. Estava muito perturbado com as suas emoções. Olhou-se no espelho de meio corpo que mantinha ali, muitas vezes se perguntou o que fazia aquele espelho em seu escritório, olhou-se e ajustou seu casaco. Sua mesa estava repleta de documentos que precisavam ser despachados. Ele não conseguia se concentrar. Pensou em ligar para ela, encontrar uma desculpa e fazê-la voltar. Faria ele um papel ridículo? E se ela não voltar? _ pensou.
O medo o fez paralisar.
No dia seguinte, ele foi para o mar onde se sentia livre e leve. Do mar olhou sua nau que não podia mover-se, mas demonstrava seu poder, já fora branca agora estava desgastada, as velas estavam comprometidas e ele estava procurando coragem para se entregar àquele amor”.
Ela termina a taça de vinho, o sono chegara.... Um doce de abóbora para completar o jantar. Fica em seu sofá sentada, olhando os inúmeros canais da TV por assinatura, nada a agrada. Ela faz um chá de erva doce, para aquecer o corpo e a alma. Fica pensativa, está com saudades de seu amor. Nos últimos dias ele anda arredio e ela sem paciência, nesses momentos o melhor é o afastamento. Ela lê um pouco da história deles, pensa que ao escrever os sentimentos passam a pertencer aos personagens, será que no fim o amor não mais pertencerá a eles?

Parte III
_ O amor, às vezes, nos toma de sobressalto, pensou ela.
Ela que demorou tanto tempo para perceber que estava amando aquele homem forte, de olhar frio, mimado e com tamanha dificuldade de assimilar opiniões diferentes da dele. Um homem tão distante do modelo que ela admirava, sem estilo, desajeitado e que não se permitia vivenciar algo novo, que o tirasse da zona de conforto. Não costumava arriscar, ousar ou se permitir ir além daquilo que tinha desenhado. Seguia seus rituais ficando extremamente irritado quando precisava fazer qualquer mudança no seu dia a dia.

O tempo de convivência trouxe alguns conflitos. Algo existia além da natural implicância. Na verdade, o que poderia haver entre duas pessoas tão identicamente diferentes? As semelhanças terminavam na teimosia e no mal humor.  Algo intrigante em alguém tão resmungão, que se deixa influenciar por ações externas. Uma pessoa tão confusamente envolvente e atraente, apesar de estar fora de qualquer padrão de beleza. Tão frágil emocionalmente que não consegue dominar suas emoções. Por mais que seu jeito desarrumado e desajeitado demonstrasse uma certa irreverência, ele era um homem a moda antiga, cheio de regras e de conceitos preconcebidos.
Essa descrição demonstra o quão ambíguo é esse homem. E ela que sempre admirou homens mais velhos e centrados, se via agora completamente envolvida por aquela pessoa de personalidade controladora, rabugento e irritantemente agitado. Como ele despertou um sentimento tão intenso?
O amor chega devagar, não faz alarde. A paixão é fogo, arde, desperta um desejo incontrolável.  Ela se deu conta do quanto estava envolvida numa sessão de terapia. Resistiu bravamente àquele sentimento, mas o tempo fora implacável e a fez perceber que era o amor mais genuíno que já sentira. E decidiu se entregar. Ele continuava apaixonado e agora resistia, temia se entregar e sair da zona de conforto. Vivenciar algo novo, àquela altura de sua vida, era impensável para ele.
Ela percebe que o que sente por aquele ser tão apaixonante, é um amor tão forte, que não imaginava mais ser capaz de sentir. Não porque desacreditava do amor, mas porque não se sentia capaz de amar com tanta intensidade. Já havia amado antes, acabara uma relação recentemente, nada parecido com o que sentia agora. O medo de viver aquele amor, era paralisante. Os dois se procuravam, se desejavam e sentiam o mesmo medo. O amor é capaz de romper o medo?
Ela para, respira profundamente e sente como ele está presente mesmo estando distante. Ela se volta para a história dos dois, relembra de muitos momentos que eles viveram juntos, relembra de algumas discussões e enfatiza alguns aspectos da personalidade dele, tentando entender se esse amor tem alguma chance.
“Os olhos pequenos e um olhar apertado, refletiam muito dele. Talvez essa característica física, já demonstrava o quão fechado e reservado ele era.  Os cabelos desarrumados, a pele bronzeada e o corpo esguio, com a barba por fazer e a fisionomia sisuda provocavam o desejo de manter a distância, a luz da sensatez, ninguém se aproximaria daquele que sempre demonstrava tamanho azedume. O fato é que alguém com tantas amarras cria barreiras intransponíveis para quem deseja se aproximar. Seria ele assim quando jovem? O que ocorrera ao longo dos anos, para que ele se tornasse tão frio e inflexível?
Ele era capaz de uma reação brusca e rude e no momento seguinte, permitia-se um contato mais íntimo, um abraço, um beijo ou dois. Como se não pudesse ou não quisesse se deixar levar... para o outro, algo intrigante, que deixava uma dúvida. Será que algum dia ele avançaria? Talvez não. O tempo da sedução havia passado. Deixou um doce amargo, um desejo adormecido, um bem querer que não faz sentido. Uma vontade de estar próximo não atendida. Ele fora tão meigo, próximo, envolvente e repentinamente se fez tão distante, indiferente e inconstante. Seria o fim?
Quem é esse casmurro? Um homem incapaz de se apaixonar, que não acredita que o amor possa ser vivido após uma certa idade. Para quem se envolver sentimentalmente é patético, ridículo e infantil. Como se o amor fosse algo matematicamente exato. O amor é inquietante, quente e desatinado. Não há exatidão no amor. O que não significa ser infantil, tolo, inconsequente ou ingênuo. Ele pode ser genuíno, verdadeiro, consciente, responsável, um bem querer que se alimenta da felicidade do outro, mesmo que não seja ao lado de quem se ama. Amor é um sentimento intenso, que alimenta e acalenta a alma de quem sente, independentemente de ser correspondido. Amor não é posse, é querer bem. Amor é querer a felicidade do outro, amor é sentir, desejar, sorrir, viver sem cobranças, sem limites, sem amarras. Visto assim, o amor é algo inconcebível para esse doce casmurro.
Um falso bilhete dizia:
_ faz tempo que estou de olho em você.
O dublo sentido daquela fala e tantas outras não fora entendida, perdeu-se o time. Talvez, a rigidez fosse algo que os aproximava. E a falta de atitude, de decisão e coragem fizera o implacável tempo definir que o sentimento ficaria restrito a ser intensamente vivenciado nos desejos ocultos, sem que fosse realmente vivido.
Irritantemente, despertava o desejo de matar e o ódio.
_ O amor e o ódio estão sempre lado a lado. Se misturam. – Dizia ele.
Vez ou outra, era essa a fala capaz de enrubescer e provocar um olhar repleto de sentimento e desejo... A indecisão estava acima da compreensão, perturbadora e inquietante, determinava o fracasso daquele sentimento equivocado. Nem sempre terminava uma frase ou concluía algo. Terrivelmente maçante, sentir um corpo vibrando e uma obrigação de deixar gostosamente de vivenciar aquele momento intenso e tenso. Um sorriso quando questionado sobre seu potencial. Uma testa enrugada e uma graça para evitar o assunto, quase sempre frustrante mesmo para alguém que não cria expectativas. Impossível não criar uma expectativa após um beijo. Arriscar alguma pergunta a esse respeito? Certamente calar-se-ia. Curioso é que nunca ouve uma única troca de palavras sobre os beijos, os abraços ou os olhares trocados.
Um certo desconforto paira naquele olhar. A barba grisalha mostra a passagem do tempo e as marcas naquele rosto demonstram a rigidez da alma que ali habita.
_vamos curtir a noite? – Disse ele, convidando para uma bebida.
A falta de uma resposta arrojada silenciou o desejo.
_ O que aconteceu?
A história clássica de um querer não correspondido... tudo e nada!
Apesar de ter viajado por alguns lugares do mundo, vivia na sua caverna. Levava sua caverna para todos os lugares. Sentia-se protegido dentro de sua caverna, que o mantinha distante do mundo voraz, dos sentimentos intensos e das tomadas de decisões. Tão acolhedora sua caverna, onde podia refastelar-se no silêncio de seus pensamentos inquietantes.
Ao sair da sua caverna levava consigo a bolha que o mantinha distante do mundo que passava veloz a sua frente. Ele não queria se expor, correr riscos, mas devia. Só correndo riscos podemos encontrar a felicidade e quando arriscamos e não temos êxito encontramos a sabedoria.  Quase sempre optava pela estupidez para se manter distante dos riscos. Assim sua bolha o protegia.
Esse jeito insensível o mantinha longe de experiências que podiam trazer luz, alegria, bom humor e carinho para sua vida. Em alguns momentos, era capaz de gestos carinhosos, de um abraço ou de atravessar uma sala abruptamente para dar um singelo beijo.  No momento seguinte, sua rispidez mantinha distante qualquer interlocutor. Parecia que algo o angustiava e incomodava seu ser. Por outro lado tinha tamanha necessidade de ser amado, admirado e querido. Tão insensato...
A dura casca do casmurro ser... Algo, em algum momento enrijeceu aquela alma, tornando-a fria e imaleável. No fundo daquele olhar parecia existir uma dor, uma certa insatisfação, talvez algum sonho do qual abrira mão... talvez uma busca por uma felicidade que ele mesmo não acreditava existir. Quase sempre a irritação era sua maior e melhor companheira. A bolha, a caverna e a casca dura do casmurro são intransponíveis...
O que importa é a luz e a alegria que cada um de nós consegue fazer brilhar em si mesmo... arrisque-se mais... dizer isso para alguém tão rabugento soa como um desaforo. É muito curioso o quanto esse casmurro se escondia em sua bolha... Apesar de ter sua caverna invadida por outras pessoas, só permanecia ali aquelas que não representavam ameaça, que na avaliação dele jamais o compreenderiam.
Parece mais certo afirmar que são duas pessoas diferentemente idênticas. Uma diferença é a vontade de arriscar-se, sem medo e sem pré-conceitos. Na verdade, os dois sentiam um certo medo do outro. Talvez explicasse a rigidez dos corpos, na troca de um abraço. Já no campo intelectual as semelhanças eram muitas, tinham percepções e avaliações parecidas. Uma frieza na análise dos fatos, um olhar distante para situações que causariam temor em alguns. Para assumir responsabilidades e riscos profissionais eles se assemelhavam, eram quase destemidos, ousados e se permitiam, eram duros no embate.
Quando discordavam dos fatos, a discussão era voraz. Poucos tinham coragem de tomar partido quando os dois defendiam seus pontos de vista. Era mais cômodo assistir a distância e aguardar o resultado final, que nem sempre tinha um vitorioso. A irritação, muitas vezes, dominava a cena, para os expectadores era pura emoção. Um sabia da importância do outro para que o sucesso acontecesse, mas a necessidade de espezinhar era maior que a vontade de alcançar os resultados. Nunca comprometiam o projeto, só tornavam mais emocionante cada etapa.
Às vezes, a agressividade dava lugar a um gesto de amizade, raramente, de carinho. Só não durava muito tempo, no momento seguinte a disputa por espaço e liderança predominava. Eles se digladiavam até um sucumbir ao poder do outro. Sempre demarcando território e disputando espaço, não porque queriam aparecer mais ou ser mais importante que o outro, queriam apenas dominar um ao outro. Fosse no território profissional, pessoal ou sentimental, queriam dominar a relação”.
Ela toma seu chá, imaginando o que teria acontecido se ela fosse mais ousada, menos insegura e tivesse se permitido mais... teria ele continuado com suas investidas?

Parte IV
O dia passa rápido, uma agenda agitada a deixa sem tempo para pensar naquela pessoa que tem provocado grandes mudanças no modo dela ver a vida. Um amor que bagunça e tira tudo do lugar, acaba com as crenças, quebra os conceitos e provoca reações inesperadas. Ela chega em casa, toma um banho e vai para cozinha, prepara um creme de mandioca e vai encontrar seu grande parceiro e atual confidente, o notebook.
Ela busca seu sofá, um cobertor, um chá quente. Uma noite chuvosa e de temperatura baixa. Ela se pergunta o que ele diria se estivesse lendo sua história, estaria incomodado?
_ Claro, ele estaria irritado, como sempre. – Ela ri.
Passeia pelos canais da tv, assiste uma série que ela adora, lembra que ele também. Ela pensa em como ele está e o que estaria fazendo. Sente que mesmo passando dias sem encontra-lo o sentimento não muda, ela bem que tentou acabar com aquele amor, mas não consegue deixar de amar... Com o notebook no colo começa a contar um pouco daquela história.
“Como ele havia envelhecido, a pele já tinha sinais da idade, uma pele que nunca fora tratada. Ele era demasiadamente machista para se permitir um cuidado com a pele, provavelmente nunca havia passado um só hidratante, talvez um protetor solar, já que vivia tanto tempo no mar. O corpo, que outrora fora musculoso e forte, agora é frágil. Ele praticava esportes, mas o corpo já demonstrava certas limitações.
Os cabelos grisalhos e a pele descuidada denotavam a idade, ele já havia passado dos 50 anos, estava mais próximo dos 60 anos. E a robustez com que encarava a vida demonstrava o quanto ele era antiquado. Tudo nele era ambíguo, tão liberal para algumas coisas e tão retrógado para outras. Uma alma inquieta, um humor inconstante e uma personalidade marcante e, por vezes, sombria. Ela lembra de um personagem de desenho animado, que dizia “Oh céus! Oh vida! Oh azar! Isso não vai dar certo”, era uma boa referência para personalidade dele.
A vida pesava sobre seus ombros. Ele tinha uma amargura no olhar, como se algo o fizesse ver a vida com certa reserva. Tinha pequenos rompantes de alegria, mas logo se fechava em sua casca e se trancava em sua caverna. Quando estava irritado, se percebia pelo andar, o passo firme, acelerado e a respiração ofegante alertavam: mantenha uma distância segura. Ele era extremamente grosseiro e rude quando estava de mal humor, e como quase sempre estava nesse estágio, o excepcional era encontrá-lo bem-humorado e dócil.
Do outro lado, estava ela com seu bom humor. É bem verdade, que ele conseguira provocar momentos de irritabilidade, deixando-a nervosa e impaciente, algo raro. Ela se questionava do poder que dava aquele homem tão cheio de regras. _ Por que ele me tira do eixo com tanta facilidade?
Ela procura entender mais daquela personalidade tão deliciosamente intrigante. Raramente ele contava um pouco de sua história, quando isso acontecia ela procurava entender o que se desenhava nas entrelinhas. Como uma pessoa com olhar tão frio e tanta dificuldade de lhe dar com os próprios sentimentos, pode provocar no outro tanto amor”?
O telefone toca, tirando-a de traz da tela do seu notebook. A vida real a chama de volta e surpreende, a inconfundível voz rude, está serena e doce. Ela sente um frio na barriga, o coração bate descompassado, fica ansiosa. Ele diz que precisam conversar e sugere um jantar, ela aceita e fica intrigada com a motivação.
Um convite, sem maiores explicações, sem dizer o assunto?
Enquanto escolhe um look que seja discreto e sedutor, tenta entender o que motivou aquele convite. Ela escolhe um vestido de seda, uma bela sandália vermelha, maquiagem suave, quer se sentir sedutora.
_ Preciso de uma bolsa que caiba um pouco de suas emoções e expectativas. Ah, expectativas! – Ela sorri enquanto se olha no espelho.
Ela tem como mantra não criar expectativas sobre nada em sua vida. Ela diz que criar expectativas é um grande risco de sofrimento, quando você entra em uma situação sem expectativas, a chance de se surpreender positivamente é muito maior.
Ao encontra-lo, o beijo roubado e um abraço demorado, outro beijo roubado. Parece que a noite será emocionante. A sensação que ela tem é que ele será mais objetivo, sairá da zona de conforto, talvez se mostre um pouco mais e se permita sentir. A conversa é interessante, ele se mostra mais amável e conta coisas intimas de sua vida, demonstrando que atrás daquela figura fria e languida, tem um coração que sente e uma dor que deixa uma nuvem cinza sobre ele. Algo mais, tem atrás daquela casca dura e quase intransponível, que momentaneamente se abre e deixa transparecer fragmentos de alguém apaixonado.
Ele toca as mãos dela suavemente e a olha fixamente. Ela sente um arrepio percorrer todo seu corpo, por um instante pensa que seria melhor estar refugiada atrás da tela de seu computador, apenas criando essa cena, do que estar ali. Como ela que tanto desejou viver aquele momento, estava tão estranhamente incomodada e com tanto medo? Ela respira profundamente e se concentra na conversa, conta um pouco de sua história, se expõe contando fatos que sempre manteve oculto. Eles mostram um outro lado, como se estivessem fazendo um pacto, mostrando um pouco de sua intimidade para o outro.
O jantar termina, na despedida, outro beijo roubado. E a certeza dela de que ele avançaria, fica no beijo roubado. Ela entra em seu carro e segue seu caminho, pensando até quando vai controlar aquele desejo tão ardente que sente por ele.
Ele vai embora pensando como pode ter sido tão covarde, ter deixado mais uma oportunidade única passar... Ele a deseja tanto e sempre fica travado, amedrontado e inseguro.
_ Inseguro mesmo... Pensou ele.
Ao chegar em casa, ela não resiste a uma deliciosa caixa de chocolate, 70% cacau, é claro. E se aninha em seu sofá, pega seu notebook e vai escrever sobre os dois.
Ela começa pensando no amor que sente, no quanto é angustiante aquela indecisão dele. O que o deixa preso naquela caverna que ela não consegue adentrar?

Parte V
O dia promete, eles devem passar o dia todo juntos, muitos compromissos profissionais. Ela está segura, parece mais decidida. Ele chega do mesmo jeito de sempre, irritadiço. É tão cedo e ele já está no mal humor de todos os dias. Ela pensa como será o dia com ele tão irritado. Tenta abstrair o incomodo, percebe que não será nada fácil e que seus planos podem ir por água a baixo.
Ela se refugia atrás da tela de seu inseparável notebook. E deixa extravasar sua emoção.
“Clara, acorda decidida a tomar as rédeas daquela história.
_ Só você pode dar cor nessa história morna e que está em preto e branco. Coragem! – Diz olhando no espelho.
Clara se veste lindamente, usa uma bela calça flare preta, camisa branca e um lindo colar vermelho, sapato de salto alto e uma maquiagem leve, sempre usa batom natural.
_ Clara, Clara esse batom é uma tática para não deixar evidente os beijos roubados... – Pensa em voz alta enquanto termina a maquiagem.
Quando ela percebe que ele está chegando, seu coração dispara, sente um frio na barriga, o sangue parece gelar. A sensação é desconfortável e deliciosamente apavorante. Tenta disfarçar sua ansiedade e anular seu corpo que insiste em estremecer.
Ele entra na sala e a fita ao longe, Clara se mantem distante, ao menos aos olhos dele.
_ Bom dia! – Fala com um tom severo
_ Bom dia! – Responde Clara sem tirar os olhos do computador.
_Você não vai nem olhar para me cumprimentar? O computador é mais interessante ou é pura falta de educação mesmo?
_ As duas coisas. Você chega despejando gentileza e espera ser recebido com beijos.
_ Exatamente! _ diz ele enquanto se dirige até ela.
Ele se abaixa e rouba-lhe um beijo. Ela olha para ele e sorri timidamente.
Ela levanta e o abraça carinhosamente, ele corresponde ao abraço e os dois se beijam ardentemente. Se olham e com toda cumplicidade exigida para o momento, Clara pega sua bolsa e os dois saem juntos, decidem viver aquele momento, se entregar a paixão. Entram no carro e vão para casa dela. O desejo é tanto que começam a se beijar ainda no carro, entram derrubando os bibelôs da mesa de centro da sala. Se jogam no sofá, as peças de roupas começam a cair pelo chão. A cada movimento os dois se olham intensamente e se beijam ardentemente.
Clara percorre com as mãos as costas dele, sente o gosto de mar que a pele dele trás. Beija lentamente a nuca, escorrega os lábios vagarosamente até a orelha, dá um beijo suave, encosta o corpo que está ardente de desejo, nas costas dele, a respiração é ofegante.
Ele se vira para ela, tira a camiseta lentamente e a envolve em seus braços, a beija. Os lábios macios dela o deixam em transe, ela toca os lábios dele com a língua. Ele corresponde, passando a língua pelos lábios dela, a boca entreaberta espera que ela o beije. Uma mordida suave no canto dos lábios dele, provoca um sussurro. As mãos entrelaçadas se apertam e o olhos estão com um brilho apaixonante.
Clara abre lentamente a camisa, mostrando seu corpo, ele se deleita com cada botão que vê sendo aberto. Ela tem um olhar desejoso e tímido. Ele a traz para junto de seu corpo, e lentamente retira a camisa, o cheiro doce do perfume dela, o deixa embriagado de prazer. Ele a beija lentamente e percorre com os lábios o rosto e o pescoço dela, provocando ainda mais desejo. Desce lentamente, os lábios pelos ombros e vai percorrendo o corpo, beijando-a suavemente, arrancando-lhe arrepios e reações que a fazem estremecer. Os corpos entrelaçados, seminus se encaixam perfeitamente. Ela passa o pé pela perna dele enquanto ele retira o cabelo dela do rosto e a olha fixamente.

O olhar deixa o desejo pujante e os beijos mais ardentes, eles vão para o quarto, os sapatos ficam pelo caminho. Ela abre lentamente o zíper da calça e a deixa cair, a lingerie preta o deixa mais encantado, ela se aninha na cama, como um felina e ele não perde um único gesto dela. Os corpos se tocam, as mãos se procuram, ele retira toda a roupa de Clara, e passeia pelo corpo sentindo o cheiro doce daquela pele macia.
Ela o acarinha maliciosamente, os dois se entregam ao prazer. Os corpos se movimentam bruscamente, lentamente, intensamente, delicadamente, com toda energia e força. E quando ela foge dele, ele a pega como um leão buscando sua presa e depois a solta para ver a reação, ela é a felina e ele a presa. O jogo de poder que acontece entre eles, se faz presente na cama.
E a disputa pelo prazer e pelo poder é intensa. Eles alcançam o ápice do prazer, os corpos suados e relaxados ficam lado a lado, ele a abraça aninhando-a em seu peito. Ela sorri, ainda sob o êxtase do prazer. Ele quer manter o poder.

Ele entra na sala e a fita ao longe, Clara se mantem distante, ao menos aos olhos dele, que se abaixa e rouba-lhe um beijo. Ela olha e sorri timidamente. O silêncio que só eles ouviam é rompido pelos compromissos do dia. Clara fecha seu computador, deixando nas páginas os sonhos que espera viver com ele.

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Claudia Paschoal