segunda-feira, 14 de março de 2016

CAPÍTULO IV - Negociar é a ordem


Ernesto chega a Verdes Mares, cidade vizinha a Alegre. Encontra sua antiga parceira, os dois conversam e ele sai mais aliviado e otimista, conseguiu uma aliada para sua batalha com Augusto. Eles almoçam juntos e Ernesto parte para Alegre, onde é aguardado. Uma reunião a portas fechadas com Augusto e mais um problema para resolver. Ele conseguiu aplacar a situação acordando que recuaria no momento oportuno, e tiraria o seu pré-candidato da disputa. Muitas vezes é preciso cortar na própria carne, o desafio agora é convencer seu pupilo de que não é o momento para se candidatar, ele jamais poderia saber que foi parte de um acordo com Augusto, seria devastador e Ernesto o perderia. O momento exigia destreza e qualquer perda seria inadmissível.
Na volta para capital, Ernesto é informado que Gilberto agendou uma reunião para manhã do dia seguinte com todo seu staff e que a crise na segurança pública e as denuncias estavam na pauta. Tratou de ligar para seus assessores de imprensa e jurídico e marcou uma reunião para noite, precisava estabelecer uma estratégia para se defender das acusações infundadas que estava sofrendo. Ligou para o Secretário de Segurança Pública para sentir se a reunião tinha surtido efeito.
Em Alegre, Augusto se encontra com Marcelo, Samuel e Fabrício para uma reunião de urgência, precisava participar seus apadrinhados de que o jogo seria pesado e esclarecer que não deviam criticar ou se posicionar no caso do  anuncio do pré candidato apoiado por Ernesto.
                _ Não me façam perguntas, apenas façam o que estou mandando.
Fabrício, que em tese seria o mais prejudicado, questiona se algo será feito para reverter o caso. Augusto se irrita e deixa claro que não é para tomar partido de nada, o momento é de silenciar. Estrategicamente, o momento é de recuar para contra-atacar, tem que se ter muita calma, a derrota momentânea garantirá a vitória final.
Marcelo demonstra todo o seu descontentamento, não gosta de recuar nunca. Samuel é mais inexperiente e prefere ficar na zona de conforto, tem muito receio em se posicionar e escolher o lado errado. Antes de tomar qualquer decisão, se reporta a um assessor que o orienta sobre como se posicionar numa ou noutra situação.
Augusto estava sofrendo pressão de todos os lados, a oposição estava revirando as gavetas dele para encontrar algo que pudesse incriminá-lo. Seu perfil não agradava a todos, muito embora fosse um político capaz de aglutinar apoio, tinha aqueles que o odiavam pelo seu jeito autoritário e agressivo. A vida pessoal de Augusto o deixava exposto, ele sempre gostou de bebidas e, às vezes, utilizava outras substâncias para manter a excitação. E as conseqüências eram sempre devastadoras, se expunha publicamente e a oposição não perdoava.
Naquele momento, ele precisava agradar a oposição, para minimizar os estragos que uma festa ocorrida no fim de semana em seu apartamento, tinha lhe causado. As fotos que estavam nas mãos dos vereadores da oposição eram altamente comprometedoras. E as exigências feitas pelos opositores eram surreal. Ele não tinha muitas opções, tinha que sentar para negociar.
Negociar não era problema. Sempre foi bom negociador, era um empresário respeitado e que atuava em vários ramos. Agora, engolir os risos e as alfinetadas dos vereadores quanto a sua performance depois de uma noite de pura farra, era algo que ele não sabia administrar. A pressão era grande e ter que negociar com quem estava tentando levar vantagem de uma situação da vida privada, era o mesmo que ter que engolir uma espada, cortava na alma.
A mesa de negociações foi aberta, os ânimos estavam exaltados. Todos se sentiam no direito de fazer solicitações das mais variadas, de cargos até prestações de serviços públicos e indicações para parentes. Augusto perdeu a paciência, jogou as cartas para o alto.
                _ Se vocês querem me ferrar, me ferrem. Não vou negociar com ninguém. Estão pensando o que? Que vão chegar aqui e me chantagear assim? Estão loucos?
Os nobres edis não esperavam por aquela reação. Ficaram atônitos, todos se olhavam como se não acreditassem na reação dele. Eles não sabiam como reagir àquela atitude, não tinham um plano B. A decisão foi sair e estabelecer uma nova estratégia.
                _ Querem negociar? Vamos fazer isto abertamente, em público, querem? Esbravejava Augusto.
Ele tinha consciência do que estava falando, sabia que seria impossível e os vereadores também. Naquele momento era a única coisa que ocorria para que ele ganhasse tempo e pudesse chamar para uma negociação individual,  o que deixaria a conta muito menor. Ele sabia que uma conversa reservada poderia até ser lucrativa, já que também tinha algumas informações sobre um ou outro vereador. Claro que não colocaria estas informações na mesa com todos juntos, agora numa conversa reservada, cada um mostra seu poder de fogo.
Logo que deu por encerrada a reunião e os vereadores saíram, o primeiro se apressou em ligar. Ele comemorou, estava certo. Atendeu e decidiu que só atenderia dois dias depois. Agendou e ficou aguardando o próximo telefonema. Como esperado, todos ligaram e as agendas foram feitas. Alguns tinham pretensões futuras e ele sabia muito bem barganhar com eles neste campo. Ter o apoio dele para as próximas eleições era muito importante para quem pretendia se reeleger ou se candidatar a vice-prefeito.
A noite chegou e ele foi para casa, aliviado. No caminho, decidiu ligar para alguém com quem  tinha uma relação especial.
                _ Tá onde?
                _ Em casa. Diz a voz do outro lado.
                _ Vem pra cá, estou precisando conversar com você.
                _ Hoje não posso.
                _ Por quê?
                _ Depois te falo.
                _ Preciso muito conversar com você, meu dia foi péssimo. Começou com uma reunião horrível e terminou pior ainda. Vem pra cá, estou pedindo.
                _ Não tenho como. Vem você...
                _ Não pode vir aqui e eu posso ir até ai?
                _ Pode.
                _ Vou passar no apartamento deixar umas coisas e vou.  Você vence sempre.
                _ Estarei te esperando.
Augusto segue para seu apartamento, guarda alguns documentos em seu cofre particular.  E pega uma caixa com um belo anel. Ele estava decidido a presentear sua querida amiga. Já tinham uma relação de muitos anos e acreditava que o momento era para dar um passo mais sério. Só uma coisa incomodava Augusto, a sua querida amiga tinha uma proximidade com um desafeto político, mas ele acreditava que podia resolver facilmente isto.
Na capital, Ernesto se encontra com seus assessores em seu apartamento. Paulo apresenta uma matéria que soltaria na imprensa com as explicações de Ernesto para os assuntos que estão sendo explorados pela oposição. O jurídico traz boas e más notícias, deixando-o mais tenso. Sabe que a reunião da manhã seguinte será tensa e que Gilberto não irá tolerar falhas. Quando termina a reunião, uma ligação.
                _ Tudo bem? Pensou no meu pedido?
Ele ouve o que esperava. Seu pedido estava sendo atendido. Motivo para comemorar.
                _ Se estivesse aqui tomaríamos juntos um bom vinho.
Ele desliga e pensa que tudo poderia ser diferente se ele tivesse investido mais naquela relação. Só que o tempo passou e tudo ficou para trás.
Na manhã seguinte, a reunião com Gilberto é muito tensa. Todos são cobrados e novas metas são estabelecidas, alguns erros são inaceitáveis e Ernesto é cobrado. Ele se sente na berlinda, segura a ira e leva a reunião até o fim. As noticias de sua interferência na Secretaria de Segurança Pública foram positivas. O Secretário da pasta trouxe boas notícias, os ânimos estavam mais calmos, agora as propostas precisavam ser colocadas em prática. Gilberto parabeniza Ernesto, que respira aliviado, esta demonstração de confiança é muito importante para que todos saibam que a relação entre eles está preservada.
O momento era de negociação, as eleições municipais estavam próximas. Ernesto tinha muitos municípios para administrar e um problema para resolver, retirar a candidatura de seu pupilo como prometeu para Augusto.