quarta-feira, 2 de março de 2016

CAPÍTULO II A festa continua


Alguns saem à francesa. Preferem não permanecer na parte mais quente da festa. Depois de  certa hora, o clima esquenta, todos já dançam sem se preocupar com o ridículo. A sensualidade se espalha, algumas pessoas se aproveitam para conseguir pequenos favores, outros apenas se divertem. Fotos são proibidas, melhor não haver registro destes momentos.
As decisões que foram tomadas antes são cochichadas aqui e ali. Um diz que saiu vitorioso porque conseguiu finalizar uma negociação de meses, outro que conseguiu liberar um processo que se arrastava e outro diz que tem uma promessa de trabalho. Assim, cada um do seu modo, conta uma vantagem. Entre uma bebida e troca de caricias, alguns arriscam outras negociações.
Neste contexto está Fabrício, um jovem promissor e extremamente sedutor que sabe usar seus encantos como ninguém. Ele mantém quase todas as assessoras de “seus padrinhos” fieis aos seus “sonhos”. Com chances de galgar o cargo de prefeito de Felicidade, tem seu foco no apoio das principais lideranças de seu partido.
Fabrício se jogou na pista de dança e logo foi fisgado por uma modelete que fora convidada por um de seus padrinhos. Ele nunca investia em alguém só para satisfazer seu desejo, sabia que podia conseguir algumas informações preciosas e usaria seu poder de sedução para garantir mais uma fonte.
Naquela festa todos podiam se dar bem, Benito era o típico capacho, vivia das migalhas deixadas pelos outros, sempre na espreita a espera de um político desavisado que pudesse olhar pra aquela figura asquerosa. Ele era um tipo pouco atraente,  andava sempre mau vestido e mau cheiroso, sempre com uma postura de fracassado. Ele é advogado, nunca teve sucesso, tentou a vida política e vive desta sua única tentativa, apesar de já ter passado 10 anos.
Ao ver Benito,  Fabrício decide maneirar porque sabe que pode ser “lembrado” depois do que estava fazendo naquela festa. E Fabrício não era o tipo que ficava nas mãos de ninguém. Ele fez escola com Augusto, que era muito perspicaz e sabia fazer o outro dever algum favor a ele, mas ele jamais devia favores...
Benito não costumava se da bem nas festas, era desprezado porque todos sabiam de sua estória. Ele não convencia ninguém, era o típico mentiroso e tentava enrolar a todos. Acreditava que bajulando um ou outro conseguiria facilitar alguma coisa. Trabalhar não era exatamente algo que ele desejava. Procurava sempre aplicar um golpe que lhe rendesse algum dinheiro para sobreviver por alguns meses.
A casa ampla deixava o som ecoar pela madrugada. As cortinas de seda, os tapetes e os cristais encantavam aos olhos dos mais atentos. A bela casa era de um grande empresário do ramo da construção civil, muito utilizada para reuniões políticas das grandes lideranças da nação. Aquela altura as duas piscinas já estavam movimentadas, a noite de verão convidava a um mergulho.
Entre um whisky, um mergulho e celulares que tocavam na madrugada, os empresários aproveitavam para afinar a conversa com as lideranças políticas, era garantia de uma porta aberta no dia seguinte. E assim a noite seguia.  O momento político era tenso, as eleições estavam se aproximando e muitos interesses estavam em jogo. Alguns eram ambiciosos, tinham pretensões de serem indicados para o senado ou câmara federal, só que nem sempre as pretensões e o estofo político eram compatíveis.
Otelo era um destes casos. Filho de um político conhecido, que fora envolvido em alguns escândalos, tentou a carreira de marketing político, sem ter grande ascensão voltou-se,  como seu irmão, para a política. O perfil de Otelo era de bom moço, sempre submisso a esposa, ao pai e aos irmãos mais velhos. Tinha problemas com sua auto-estima, porque era um homem com um tipo físico que fugia aos padrões estéticos da moda.
Sua retidão de caráter, muitas vezes, era um grande problema para obter espaço no meio político, não era exatamente alguém que pactuava com as amarrações feitas na madrugada, em festas e regada a bebidas, como  a que acontecia naquela noite. Otelo estava na festa porque precisava garantir a indicação de um velho amigo de seu pai. Mesmo contrariado e incomodado, mantinha-se firme ao seu propósito, em seu intimo acreditava ser capaz de fazer a diferença. Diante dos fatos, teria Otelo alguma chance de fazer a diferença?
A madrugada passa rápida e o dia começa a amanhecer. Alguns já se preparam para tomar o café da manhã e seguirem para seus redutos políticos. No jornal da manhã, já aparece uma nota sobre a indicação de um nome para deputado federal, alguns olhares e sorrisos confirmam que a negociação tinha se dado naquela noite, durante a festa.
Ernesto comemora a noticia, o nome sugerido por ele havia sido anunciado como pré-candidato a deputado na região política de Ângelo. Esta era uma grande vitoria, era mais um passo dado para convencer Ângelo a apoiar Saulo.
Ernesto liga para Paulo seu assessor de imprensa.
                _ Cada peça movimentada acertadamente é um avanço. Você foi muito eficiente tornando noticia logo pela manhã.
                _ Usei minha fonte, sempre infalível, respondeu Paulo
                _ Mantenha seus contatos, sabe como são importantes. Parabéns!
Durante o café, Pedro que é o dono da casa, comemora com Ernesto a cartada de mestre dada por ele.
                _ Foi perfeita a sua manobra. Depois desta, o Ângelo entenderá que o melhor é compor, assim todos ficarão confortáveis.
                _ Sabe que com o Ângelo não é assim,  só é bom quando ele dá as cartas. Será uma luta difícil. Ele vai revidar.

Ernesto recebe uma ligação de Ângelo que está possesso com o que aconteceu. Logo diz que não aceitará afrontas deste tipo, mexer no território dele é inadmissível. A discussão é acalorada. Ernesto deixa a mesa de café e vai para o jardim. Tenta amenizar sem sucesso a fúria de Ângelo. Quando caminha de volta para tomar seu café, recebe uma ligação de Gilberto que pede que ele não se meta em discussões desnecessárias com Ângelo, porque ele precisa da liderança dele para a campanha de Governador. Ernesto percebe que foi longe demais.