terça-feira, 29 de abril de 2014

Um “doce” canalha - Parte XXIV – “Uma” canalha é pior que “um” canalha? Clara tenta superar...


Na manhã de quarta-feira, Clara acorda decidida a mudar tudo, e mantém a caminhada com o Ernesto que estava muito preocupado. Eles conversam superficialmente sobre a motivação daquela tristeza, ela  minimiza os fatos. Na verdade sente  vergonha, por ter passado por uma situação tão humilhante como aquela. Marta estava certa, a mulher que sofre a agressão se sente culpada. Clara nunca imaginou viver algo parecido, menos ainda, que teria esse sentimento de culpa.
Ernesto é um cavalheiro, prepara o café da manhã para Clara. Eles conversam sobre a festa de aniversário que será na casa dele no dia seguinte. Ela não está muito empolgada, mas a vibração dele a contagia. Vitor liga inúmeras vezes, Ernesto pergunta se ela precisa de ajuda para resolver essa questão. Clara diz que o problema tem que ser resolvido por ela. Ernesto a segura pelo braço, ela dá um gemido, ele pergunta o que aconteceu. Clara, mente dizendo que bateu o braço. Ernesto desconfia que Vitor a tenha agredido.
_ Clara, o que aconteceu?
_ Nada de importante, apenas bati o braço.
_ Você tem certeza?
_ Ernesto vamos pensar na festa de amanhã.
_ Pensei em fazer um coquetel, o que acha?
_ Tenho certeza que será tudo lindo, você tem muito bom gosto. E vou adorar de qualquer jeito, porque é feito com carinho.
_ Estou aqui para o que precisar. Se você deixar, cuido de você.
_ Ernesto, sei que estou te pedindo muito... Só mais um pouco, tudo vai se resolver.
_ Espero, continuo esperando. Só que você precisa mudar tudo isso.
_ Eu quero fazer isso, e vou conseguir. Vamos falar de amanhã.
_ Começa me falando dos convidados.
_ Já falamos, o mesmo grupo que estava na sua casa no fim de semana.
_ Não quer convidar o pessoal da empresa?
_ Não. Convidaria a Mariah e o Márcio, só que teria que convidar os demais diretores, e não tenho intimidade com eles. Prefiro fazer algo na empresa, a tarde, com a sua presença. E a noite, ficamos nós.
_ Está me convidando para participar da comemoração na empresa?
_ Sim. Quero muito que esteja lá.
_ Estarei.
_ Quer escolher o cardápio da noite?
_ Não. Quero que  me surpreenda.
_ Nossa! Quanta responsabilidade.
_ Preciso ir para empresa.
_ Vou embora. Nos falamos mais tarde?
_ Podemos jantar juntos hoje, o que acha?
_ Vou adorar, que horas e onde?
_ Combinamos o horário mais tarde, pode ser aqui em casa, preparamos algo juntos, o que me diz?
_ Que a aniversariante é você, e eu estou ganhando os presentes.
_ Tenha um bom dia, nos falamos a tarde e jantamos juntos.
_ Combinadíssimo.
Clara acompanha Ernesto até a porta. O telefone dela toca, ela atende sem ver quem é. Para surpresa dela é Vitor.
_ Que bom que você atendeu.
Ela fica em silêncio.
_ Clara? Clara? Não desliga, por favor. Só me ouve. Estou muito arrependido, não dormi a noite toda, estou muito machucado, você me bateu mesmo. Me perdoa, eu quero estar com você amanhã. Posso ir para comemorarmos juntos, seu aniversário? Diz que sim, por favor. Preciso ouvir sua voz. Não consigo acreditar no que fiz. Já chorei muito, estou morrendo de vontade de olhar seus olhos verdes, de te beijar, abraçar, acarinhar, cuidar de você. Eu te machuquei?
_ Vitor nunca pensei em passar por uma situação tão constrangedora. Você é monstruoso. É frio, não tem sentimento, é indiferente ao sofrimento que pode causar ao outro. Você não machucou fisicamente, só que me feriu gravemente. Nunca esquecerei. Espero que acerte a tua vida e siga por um caminho que nunca se aproxime do meu.
_ Não posso ficar longe de você. Quero voltar, ficar com você. Passar com você o dia e a noite de amanhã, só nós dois. Vamos ficar juntos amanhã?
_ Acha que é simples assim? Me agride, me ofende e depois passamos o meu aniversário juntos, e tudo certo? Enlouqueceu? Não quero ver você.
_ Quer. Eu sei que você quer. Que não dormiu essa noite, como eu também não dormi, pensando no que aconteceu. Aposto que não comentou com ninguém para continuar comigo.
_ Está enganado, comentei sim. E vou fazer um Boletim de Ocorrência contra você, se continuar insistindo.
_ Não vai, eu sei que não. Você me quer, tanto quanto eu te quero.
_ Sua tentativa de manipulação não tem mais efeito. Tenha um ótimo dia. Na próxima semana, você deve vir para rescisão do seu contrato. Até lá.
_ Clara, eu adoro você. Minha vida só pode dar certo com você ao meu lado. Você é muito especial... Não fique triste tudo vai se resolver da melhor forma. Eu tenho tanto a te dizer...
_ Não dá pra ficar bem e  sabe disso. E a sua atitude não deixou opção.  Fique tranqüilo, a amizade será mantida com um distanciamento natural à situação. Não farei nada que te prejudique mais, até porque você se prejudica sozinho. Perdeu seu trabalho por ser relapso, perdeu tanto tempo mentindo, que deixou de fazer o que era verdadeiramente importante.
_ Você tinha a obrigação de me defender.
_ Defendi o quanto foi possível. Só que não colocaria meu cargo em risco para defender alguém que só mente, engana, manipula. Você é um falaz, me arrependo de ter me envolvido com você.
_ Gosta do meu jeito cafajeste. Sempre me chamou de “cafinha”, e era só seu demais ninguém, todo o tempo que estava com você, era seu, estava só com você.
_ Claro, o problema é que dois minutos depois, estava com quem pagava mais. Você é vil.
_ E você é linda, te adoro, minha flor.
_ Chega. Eu trabalho. Até!
_ Amanhã estarei ai, quero ficar com você.
Clara desliga. Sente uma grande tristeza, como pôde ser submissa, se comportar desta forma tão infantil, fragilizada, sensível, vulnerável ao assédio de um homem como o Vitor. Ela pensa como conduzir a situação com o Ernesto, na empresa e no dia do aniversário dela. Rúbia liga:
_ Amiga, tudo bem?
_ Tudo indo.
_ O que houve?
_ Acabei de falar com o Vitor.
_ Você atendeu? Não estou acreditando, o que esse cara está fazendo com você?
_ O Ernesto estava saindo, nem olhei quem era no telefone, atendi.  Ele me pediu perdão. O que mais me preocupou, é que ele acredita que tem o controle sobre mim. E mais, disse que estará aqui amanhã.
_ Você proibiu a entrada dele no seu condomínio?
_ Sim.
_ Pelo menos isso.
_ Vou jantar com o Ernesto hoje, aqui em  casa, só nós dois.
_ Aleluia, tomara que perceba e mude o disco.
_ Sem chance. É apenas um jantar entre dois amigos. Não tenho a menor condição de me envolver com ninguém agora. Estou muito magoada, não seria justo comigo e com ele.
_ Está certo. Tem que ir com calma.
_ Não contei para o Ernesto o que aconteceu, mas, ele percebeu que algo muito grave havia ocorrido.
_ Ele é um homem inteligente, sagaz e muito gato.
_ Concordo. Adoraria ter um botão que acionado, mudaria tudo. Só que a vida real não é assim.
_ Onde você está?
_ Em casa. Saí para caminhar com Ernesto, tomamos café juntos. Quando ele saiu, o Vitor ligou e na sequencia você. Agora vou para o banho, me arrumar, ficar linda e ir trabalhar. Tenho algumas reuniões hoje à tarde. Depois venho para casa e vou jantar com ele.
_ Será que tem tempo para um café, com sua amiga?
_ Vou pensar. (risos)
_ Então, ta. Fica com seu canalha predileto.
_ Nossa, quanta acidez.
Elas riem e combinam de tomar café no fim da tarde. Rúbia sugere que convidem a Fedra, elas sempre se divertem juntas, e diversão é tudo o que a Clara precisa nesse momento. Ela toma seu banho, se veste lindamente e vai para empresa. Mariah diz que tem alguns problemas para resolver. Clara está bem humorada e enfrenta os problemas sem perder o humor.
Saulo havia ligado, pedindo uma reunião para responder se irá ou não financiar o projeto que apresentaram. Mariah quer saber quem substituirá Vitor.
_ O Vitor não faz mais parte do nosso quadro. Chama o Márcio.
_ Márcio, precisamos de um substituto para o Vitor, teremos reunião com Saulo na sexta, você tem alguma sugestão? Temos alguém no nosso quadro capaz?
_ Não. Posso dar uma sugestão?
_ Claro. Foi para isso que te chamei.
_ Lembra do João Pedro?
_ Lembro, com certeza. Ótimo profissional. Ele não está em outra cidade?
_ Está sim. Estive com ele no fim de semana, e se tivesse oportunidade aqui, ele disse que voltaria.
_ Seria fantástico. Ele é um excelente profissional. O problema é que precisava de alguém para me acompanhar na reunião de sexta-feira.
_ Posso ligar para ele?
_ Pode.
_ Vou deixar no viva voz. João Pedro? Márcio. Estamos precisando de um profissional com seu perfil aqui na empresa, te interessa?
_ Claro, muito.
_ Estou no viva-voz. A Clara está aqui e dará maiores informações.
_ João, tudo bem?
_ Tudo. E você? Quanto tempo.
_ Pois é. Então, preciso de alguém para assumir o departamento de projetos, e que esteja aqui na sexta-feira as 9:00 horas, para participar de uma reunião com um investidor.
_ Tudo bem, estarei ai. Só preciso ver o projeto antes, e ter uma reunião com você. Pode ser amanhã, no fim do dia?
_ Pode. Assim você comemora meu aniversário com o pessoal da empresa e fica conhecendo os seus futuros colegas.
_ Já vou chegar tendo que levar presente?
_ Presente? Não precisa de nada. Estar preparado para reunião de sexta-feira é o presente que quero.
_ Agradeço o convite e espero poder corresponder.
_ Eu também espero.
Eles se despedem e Clara segue a reunião com Márcio e Mariah.
_ Clara a semana que vem, tem duas agendas em São Paulo.
_ Que dias?
_ Segunda e quinta.
_ Mariah, não posso ficar de segunda até quinta-feira, então muda a reunião de segunda para quarta, consegue?
_ Acredito que sim. E quem te acompanhará?
_ Me passa as pautas e se há necessidade de alguém, daí definimos.
_ Agora o assunto mais importante da semana, o seu aniversário.
_ Bom, isso é fácil. Amanhã a tarde, faremos uma comemoração aqui na empresa.
_ E não teremos festa?
_ Não. Mariah, você está comigo a tanto tempo, não estou no clima para festa.
_ Entendo. Posso organizar a comemoração na empresa?
_ Pode. Pode fazer como quiser.
_ Prepare-se, vou fazer uma comemoração inesquecível.
_ O Doutor Ernesto me acompanhará.
_ Nossa! Ele é maravilhoso.
_ Meninas estou aqui.
_ Márcio, você não acha o Ernesto maravilhoso?
_ Não. Ele é um grande investidor.
_ É verdade! Só que estará aqui como meu amigo.
_ Tudo combinado? Márcio você participa das duas primeiras reuniões da tarde. As demais eu faço sozinha.
_Como quiser, posso acompanhar as demais, se for necessário.
_ Está bem, se for necessário me acompanhará.
O telefone toca, é Mendes.
_ Tudo certo? Podemos encerrar?
Eles saem, e ela atende.
_ Mendes?
_ Clara tudo bem?
_ Tudo e você.
_ Tudo bem. Estou pensando em você desde ontem, aconteceu alguma coisa?
_ Como assim?
_ Não sei. Minha intuição me diz que algo aconteceu.
_ Está tudo bem.
_ Não é o que a sua voz está dizendo.
_ Mendes, tudo certo. Acabei de terminar uma reunião, estou com a tarde repleta de compromissos e ando cansada.
_ Quando vem para São Paulo?
_ Provavelmente na quarta e quinta da próxima semana.
_ Jantamos?
_ Nos falamos, podemos almoçar ou jantar, depende da minha agenda, tem algumas pendências para serem ajustadas.
_ Tenho a sua promessa, que pelo menos um café tomaremos?
_ Claro, meu querido. Farei de tudo para almoçarmos, pelo menos.
_ Está bem. Amanhã te ligo para parabenizá-la.
_ Vou esperar. Beijos
Clara abre seus e-mails, despacha com outros diretores e segue para o almoço. Pensa em convidar a Fedra para almoçar, só que acaba ligando para o Ernesto.
_ Ernesto? Pensei em ligar para Fedra e ligo para você. É grave.
_ Que bom. E você convidaria a Fedra para almoçar, acertei?
_ Acertou.
_ Já que me ligou, posso substituir a Fedra?
_ Estou passando no seu escritório.
_ Não estou acostumado com isso. Eu passo para te apanhar.
_ Estou chegando. Beijos
Clara sempre que está sozinha lembra-se de Vitor, e ainda, sente falta dele. Apesar de tudo o que aconteceu, ela ainda está emocionalmente ligada àquele canalha. Ele liga para Clara, ela não atende. Ele deixa um recado,
_ Estou com saudades de você! Quero te ver, me deixa ficar na sua casa amanhã?
_ Como ele consegue? Parece que não assimila o que fez. Tenho que me livrar dele, não posso mais manter esse sentimento, depois de tudo o que ele fez comigo. Fala Clara em voz alta.
Ela chega ao escritório de Ernesto, ele está esperando com um buque de flores. Clara se encanta com a cena. Tem vontade de descer do carro e se jogar nos braços daquele homem tão generoso. Ela buzina e ele entra no carro.
_ Flores para você!
_ Obrigada! Você é de uma generosidade...
_ Eu sou um homem apaixonado.
_ Eu uma mulher privilegiada.
_ É um sinal?
_ É o início de algo novo.
_ Que bom!
_ Podemos almoçar no Valentim?
_ Onde você quiser.
Eles seguem para o restaurante, almoçam, conversam e Clara se sente atraída por Ernesto, ou talvez, encantada com um homem tão gentil, que se doa, que é paciente, tudo o que uma mulher espera encontrar.  Ernesto  se compromete a levar os ingredientes para o cardápio da noite. Clara o deixa no escritório e volta para empresa. A tarde de Clara é repleta de reuniões, Márcio a acompanha em todas, eles formam uma boa parceria. No final do dia, toma um café com Rúbia.
_ E a Fedra?
_ Estava ocupadíssima, com o Mesquita.
_ Nossa, estão animados.
_ Pelo jeito...
_ E você amiga, como está?
_ Estou bem. Fui ligar para a Fedra na hora do almoço e liguei para o Ernesto, ato falho. Acabamos almoçando juntos. Como já estava na rua, passei no escritório para pegá-lo. Estava com um lindo buque de flores me esperando. Deu-me vontade de descer do carro e me jogar nos braços dele.
_ Por que não fez isso?
_ Porque não seria justo.
_ Está certo. E agora a noite?
_ Vamos preparar um jantarzinho juntos, um vinho, um filme.
_ Não sei como ele consegue, ficar todo esse tempo com você “respeitando”.
_ Ele é um cavalheiro, como poucos.
Elas conversam sobre o aniversário. Clara conta sobre o Mendes e que terá um novo diretor na empresa, que talvez ela goste.
_ Vou convidá-lo para amanhã à noite! Acho que você vai gostar.
_ Que bom! Não vou ficar sozinha, pelo menos terei companhia.
Elas se despedem, Clara passa na floricultura leva flores para casa. Decide dar lindas orquídeas brancas para Ernesto.

Ela prepara a casa, toma banho, se veste para encantar. Deixa a mesa linda, escolhe algumas músicas e cria um clima intimista para receber Ernesto...