domingo, 20 de abril de 2014

Um “doce” canalha - Parte XVI – “Uma” canalha é pior que “um” canalha? – Lembranças, desejo e indefinição


Depois da viagem e das comemorações do dia dos namorados, Clara tentava pensar o que fazer com o pedido de Vitor para viajarem juntos. Ernesto tinha mandado mensagens lembrando-a de que esperava uma resposta. Clara não tinha resposta nem pra ela, nem pra eles. Vitor podia se esforçar para ser honesto, mas como ele mesmo dizia: não bastava ser, precisava parecer. Ela não queria entrar numa paranoia e começar a desconfiar de tudo o que Vitor lhe dissesse, mas tinha motivos para não acreditar nas desculpas dele. Na verdade, Clara não queria acreditar que ele fosse capaz de mentir, porque isso a obrigaria a tomar uma atitude.
O fim de semana estava chegando, eles sempre discutiam porque Vitor queria que Clara ficasse em casa, não saísse nos finais de semana em que ele não podia estar com ela. Era inaceitável ficar em casa para agradar Vitor. Ele estava a quase 6 meses muito mais tempo com Clara do que com Francesca, e Vitor acreditava que ela deveria valorizar a dedicação dele,  o quanto se esforçava para estar ao lado de Clara. Como ela não tinha experiência em relacionamentos como esse, não conseguia entender a cobrança. Para Clara o relacionamento dela com Vitor não tinha nenhuma ligação com Francesca. Ela costumava dizer que ele era seu enquanto estavam juntos, que não queria contato com a relação pretérita dele. Eles pouco falavam de Francesca, nem dos problemas que ele vivia com ela.
Clara tinha estado poucas vezes com Francesca, antes de começar essa estória com Vitor. Numa oportunidade percebeu que ela não procurava se inteirar dos assuntos dele, como aconteceu no restaurante. Enquanto Clara e Vitor conversavam sobre trabalho, Francesca permanecia alienada ao assunto. Clara estava incomodada, porque eles já tinham saído a primeira vez, e tentou envolver Francesca no diálogo, sem sucesso.
_ Não entendo nada do que vocês estão falando. E nem quero, não tenho paciência para esses assuntos.
_ Francesca, desculpa! Queria apenas que participasse para não se sentir deslocada. Façamos o seguinte, vamos mudar de assunto e falar de amenidades.
_ Francesca é assim, falo com ela sobre o trabalho, só não consigo despertar o interesse...
_ Não é verdade. Ele só reclama quando algo o desagrada.
_ Achei que você se importava... Diz Vitor, num tom de descontentamento.
_ Melhor mudarmos de assunto, vamos falar de música ou de comidas, o que acha Francesca?
_ De comida não. Ultimamente só fico em casa, cuidando de tudo, preparando o jantar, cuidando da casa e sem tempo pra mim. Nem empregada tenho mais, aquela casa é grande, me dá muito trabalho. Fico cansada, e o Vitor quer chegar e me ver arrumada, bem humorada o que é impossível.
_ A Clara não tem empregada, a casa dela é grande, e está sempre impecavelmente organizada.
_ É uma crítica? Pergunta Francesca para Vitor. Aposto que a Clara tem faxineira, não é?
_ Tenho sim. É que tenho a necessidade de manter tudo organizado, porque me sinto bem quando chego e está tudo arrumado.
_  Arrumado, limpo e muito cheiroso.
_ Você conhece bem a casa dela, Vitor?
_ Conheço o suficiente para saber disso.
_ É melhor eu ir para casa. Falamos outra hora. Sentencia Clara
_ Não vai embora, vamos jantar juntos.
_ Não posso tenho outro compromisso.
_  Compromisso com quem?
_ Você quer saber o que ela tem de compromisso, não estou entendendo. Diz irritada Francesca.
_ Você é muito engraçado. Tenho um jantar com meu amigo Zé Henrique, está na minha hora.
Clara se despediu dos dois, percebendo o descontentamento de Francesca com a fala de Vitor, que por sua vez, estava incomodado com a fala de Clara. Isso havia acontecido logo após a primeira noite de Vitor e Clara. Ela sempre procurava evitar os encontros com Francesca. Vitor não tinha o mesmo cuidado. Para Clara esses contatos eram desgastantes e desconfortáveis, ela tinha certeza que Francesca sabia de tudo. Todas as viagens que fizera com Vitor, sabidas por Francesca,  eram vigiadas a cada instante, ligava para os dois celulares dele insistentemente. Um dia Clara, sugeriu que ele não contasse que estavam viajando juntos, para ver se Francesca telefonaria tantas vezes. Clara estava certa, não houve nenhuma ligação de Francesca, Vitor não acreditou.
Clara dizia que uma mulher sabe quando está sendo traída. Vitor ria, achava presunção. Ela sabia quando ele estava mentindo e saia com outras, presunção era a dele de achar que Francesca, que estava casada com ele há tantos anos, não perceberia. A questão era entender por que Francesca, mesmo sabendo da traição, não tomava nenhuma atitude. Para Clara, ela sentia que se cobrasse uma decisão de Vitor,  não tinha certeza da escolha que ele faria.  Vitor acreditava que ela nem desconfiava de suas escapadelas, que eram muitas, mas essa era diferente, porque segundo Vitor era a primeira vez que ele mantinha uma relação estável fora de seu casamento.
Vitor nos últimos seis meses estava muito mais com Clara do que em casa. Ele reclamava da desorganização da casa, da falta de paz, tudo que dizia ter na casa de Clara. Ela nunca deu muita importância para as falas de Vitor, achava que era mais uma desculpa para ficar em sua casa. Depois que passou na casa dele, Clara entendeu que as reclamações não eram invenções, a situação da casa era lastimável, tudo fora do lugar, o cheiro não era dos melhores. Clara tentou amenizar os comentários e críticas de Vitor. Dizendo que não estava tão bagunçada assim.
_ Está vendo a bagunça? Você acha que tenho vontade de voltar pra casa e ficar aqui? Penso na sua casa, toda arrumada, limpa, cheirosa. Adoro o cheiro do seu quarto. Mesmo quando cozinhamos, já arrumamos tudo, fica sempre arrumado. Aqui é sempre essa desordem, tudo fora do lugar. Quando quero encontrar alguma coisa, é uma guerra.
_ Vitor você deveria colaborar, em casa você me ajuda com a louça, com a mesa, com tudo.
_ Claro, está tudo arrumado, dá vontade de manter tudo do jeito que está. Agora aqui está tudo bagunçado, fora do lugar. Se eu lavar a louça, não tenho nem onde  colocar a louça limpa.
_ Vitor, sinceramente, não me sinto confortável falando dessas questões com você. Não quero ter contato com seus problemas domésticos.
_ Você é linda! Podia fazer críticas e tenta amenizar a falta de organização da Francesca. Nenhuma mulher faria isso...
_ Não estou querendo ser gentil, ou estou falando isso por culpa, acredito que seja assim. Você já se colocou no lugar dela? Ela fica sozinha o tempo todo, você está sempre viajando, não sai com ela pra nada, quando tem eventos da empresa, você vai comigo. Devia pensar sobre isso.
_ Clara não quero falar disso, você é maravilhosa e compreensiva, me deixa em paz e não me sinto assim quando estou em casa, só isso.
Clara estava relembrando algumas situações que vivenciou com Vitor, na tentativa de fazer suas próprias escolhas. Era quinta-feira, ela estava em casa sozinha, e gostava de ter esses momentos de contato com seu universo interior. Ela já tinha cuidado de suas plantas, o arranjo que Zé Henrique lhe dará estava lindo e perfumando a sala. Olhou as gérberas que Vitor trouxe e seus antúrios vermelhos que a encantavam sempre.  Viu a correspondência, comeu uma fruta, tomou seu banho relaxante. E foi para o computador, tinha um relatório para terminar. Seu pensamento estava distante, não conseguia se concentrar.  Mensagem no celular.
_ Minha morena, linda e cheirosa. A mais bela flor do meu jardim, onde você está?
_ Em casa.
_ Posso passar ai?
_ Não. Quero ficar sozinha. Preciso ficar sozinha. E tenho que terminar o relatório para reunião de amanhã.
_ Só um pouco, preciso conversar com você, me acalmar.
_ O que houve desta vez?
_ Estou indo, tá?
_ Ok.
Clara se questionou da falta de posicionamento dela com relação a ele. Devia dizer que não e ponto final, só que fica penalizada e acabava cedendo. Ele sempre conseguia manipular a situação. Clara estava incomodada com aquilo e queria mudar a estória.  Pensou no Ernesto, no Mendes e no Zé Henrique e percebeu que a mudança não podia depender de nenhum deles. Essa decisão era  só dela, que tinha que entender o que motivava essa submissão. Era uma mulher forte, bem resolvida, decidida, bem sucedida, independente, qual a necessidade de ter um homem pela metade e tão dependente dela? Só uma boa terapia para entender esse mistério...
_ Clara abre aqui.
_ Oi. O que houve?
_ Discuti com  o Renato. Minha vontade era de matá-lo, ainda bem que não tenho arma.
_ Você perde o equilíbrio com muita facilidade. Diz que está aprendendo a pensar antes de agir, de respirar diante de situações extremas. Só que quando está numa situação mais tensa, perde a razão.
_ Só pensava em você, enquanto conversava com ele. No seu jeito, em você me dizendo para respirar, para me acalmar. Estou com dor de cabeça, dor de estomago, dor no braço esquerdo de tanto nervoso.
_ Senta aqui, vou aferir sua pressão.
_ Não precisa. É só porque estou com muito ódio.
_ Outra coisa que só te faz mal. Sentimentos pequenos e negativos não te levam a lugar algum.
_ Vem aqui. Faz aquela massagem que me acalma?
_ Vai pra casa. Preciso terminar meu relatório, preparar a reunião de amanhã. Tenho que marcar uma reunião com Saulo, outra com Ernesto.  Combinei de tomar café com o Samuel amanhã cedo.
_ E eu vou ficar de fora dessa conversa? Café da manhã com Samuel?
_ Qual o problema agora?
_  Ciúmes.
_ Ciúmes do Samuel? Vai pra casa, me deixa trabalhar. Você já terminou o projeto? Quero na minha mesa amanhã, sem falta. Não serei complacente.
_ Vou terminar. É bom assim, fico no meu quarto quieto trabalhando, já que não posso ficar aqui com você.
_ Você precisa terminar seu projeto. Até amanhã.
_ Por que tão distante? O que está acontecendo? Vamos programar nossa viagem, durante o fim de semana?
_ Porque estou pensando se estou no caminho certo. Tenho planos para o fim de semana.
_ Que planos? Vai ficar comigo, não é?
_ Não. Você vai ficar na sua casa. Disse que iria colaborar com a organização, que não agüentava mais tanta bagunça. Troquei o dia da minha faxineira, para ela te atender, então cuide da sua casa.
_  Agora entendi. Você me emprestou a faxineira porque assim fico preso em casa e você livre.
_ Pára de julgar o outro por você. Não preciso disso pra fazer o que quero. Você não comanda a minha vida. Na verdade, ultimamente, não anda comandando nem a sua própria vida. Boa noite!
_ Me dá um beijo. Aquele beijo que você me deu no dia dos namorados, aquele beijo como o nosso primeiro que eu roubei aqui nessa porta, lembra.
_ Lembro.
_ Estou esperando.
_ Tchau! Vai, preciso trabalhar.
_ Só depois do beijo.
Clara dá um selinho e se volta para dentro de casa. Vitor a pega pelos braços, encosta na parede e a beija ardentemente. Os dois não resistem e acabam indo para o banho juntos e depois fazem amor.
_ Agora você pode ir embora. Tenho um relatório para terminar e você também.
_ Meu note está no carro. Vou ficar aqui.
_ Vitor quero ficar sozinha, que parte você não entendeu?
_ Eu quero ficar com você, quem manda nessa relação?
_ Eu detesto quando você fala assim.
Clara vai para o banho, coloca uma roupa confortável, prende os cabelos e vai para o escritório. Vitor toma seu banho, ele sempre deixava roupas na casa dela, e vai para o escritório com duas taças de vinho.
_ Você é insuportável.
_ Você é meu anjo, minha luz. Adoro você.
_ Preciso de silêncio para trabalhar, ou melhor, vou por uma música relaxante. Oasis do Kitaro, acalma você e eu.
_  Não gosto.
_ Estou na minha casa, aqui  sou eu quem mando, baby.
_ Você manda aqui, na empresa, na minha vida, agora na nossa relação eu mando.
_ Se você acredita nisso...
Eles terminam o trabalho, Clara sugere que ele durma no quarto de hóspedes, mas ele se faz de desentendido. Ela respira. Clara está considerando todas as atitudes de Vitor para tomar sua decisão.
_ Só por curiosidade, o que disse em casa?
_ Que faria uma viagem rápida.
_ Para resolver o que?
_ Não preciso dar mais explicações lá. Explicações eu vivo dando aqui.
Na manhã seguinte, Vitor se surpreende com as flores que Clara recebe de Ernesto, o clima fica tenso...